Um levantamento inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado nesta quarta-feira (17), revela que 45% das empresas industriais projetam aumento do endividamento bancário nos próximos três meses. A expectativa é de crescimento do passivo em um cenário de maior necessidade de crédito para cobrir despesas operacionais do dia a dia.
“A política monetária atual tem afetado as empresas industriais principalmente pelo encarecimento do crédito e pelo aumento das despesas financeiras. Com juro real em torno de 10% ao ano, as empresas enfrentam mais dificuldade para financiar capital de giro, rolar dívidas e manter investimentos”, afirma Maria Virginia Colusso, analista de Políticas e Indústria da CNI.
Mais da metade das empresas ouvidas (51%) prevê aumento na necessidade de buscar financiamento lastreado em contas a receber nos próximos três meses, movimento ligado, em muitos casos, ao risco maior de inadimplência ou atraso de pagamento dos clientes. Esse tipo de financiamento é acionado quando a empresa vende a prazo, mas precisa de liquidez imediata para arcar com seus compromissos correntes.
No que diz respeito aos juros cobrados nessas operações, o estudo reforça a percepção de um ambiente financeiro mais duro: 45% das empresas acreditam que as taxas bancárias para esse tipo de crédito vão subir. Entre aquelas que planejam ampliar a demanda por recursos atrelados a contas a receber, esse percentual chega a 56%.
A pesquisa aponta ainda que 48% dos empresários projetam aumento da necessidade de financiamento de estoques no próximo trimestre, enquanto apenas 9% esperam redução. Os números indicam que fatores como maior tempo para escoar a produção ou aumento do custo de carregamento dos estoques tendem a pressionar ainda mais a demanda por capital de giro para sustentar mercadorias e insumos.
Financiar estoques significa garantir recursos para comprar, produzir ou manter produtos e matérias-primas guardados até que sejam vendidos ou utilizados no processo produtivo. Nesse campo, 45% dos entrevistados esperam alta dos juros cobrados pelos bancos para financiar insumos e mercadorias em estoque. Entre as empresas que devem aumentar a busca por crédito com essa finalidade, o índice sobe para 63%.
A procura por crédito para financiar contas a pagar também deve crescer. Segundo o levantamento, 59% dos respondentes esperam aumento dessa demanda nos próximos três meses. O dado indica a necessidade de alongar prazos de pagamento a fornecedores, possivelmente por pressão sobre o fluxo de caixa ou por dificuldades em compatibilizar os desembolsos com o ritmo de recebimento das vendas.
O financiamento de contas a pagar é uma estratégia para garantir o pagamento de fornecedores, tributos e despesas operacionais, preservando o capital de giro e evitando multas e sanções. Mais da metade das empresas consultadas (52%) acredita que os juros dessas operações vão subir, chegando a 72% entre aquelas que pretendem ampliar a tomada de crédito para essa finalidade.
Margens mais apertadas e repasse de custos aos preços
Quando o tema é a margem líquida — o percentual de lucro líquido em relação ao faturamento —, 64% das empresas esperam redução nos próximos três meses. O resultado mostra que quase dois terços dos empresários projetam queda de rentabilidade, pressionados pela combinação de custos operacionais elevados, aumento das despesas financeiras e carga tributária.
Para compensar parte dessa perda, 51% dos industriais pretendem elevar os preços de venda no próximo trimestre. Apenas 7% planejam reduzi-los, o que indica que uma parcela relevante da alta de custos deve continuar sendo repassada ao consumidor.
Ainda assim, 43% das empresas dizem que vão manter seus preços. “Essas empresas também sofrem com custos financeiros mais altos, mas evitam repassar integralmente para não perder mercado, especialmente na concorrência com produtos importados”, destaca Maria Virginia Colusso.

















