Quase oito em cada dez famílias paulistanas (74,2%) estavam endividadas em maio – o maior patamar em quatro anos –, de acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP). Em abril de 2026, o índice era de 72,9% e, em maio do ano passado, de 71,2%.
Em números absolutos, isso significa 3,33 milhões de lares na capital paulista com algum tipo de dívida.
Os dados mostram que as famílias continuam recorrendo ao crédito para sustentar o padrão de consumo, em um cenário de inflação ainda próxima do teto da meta do Banco Central, o que mantém pressão permanente sobre o orçamento doméstico.
Apesar da alta no número de endividados, a fatia média da renda comprometida com dívidas voltou a recuar: de 26,5% em abril para 26,1% em maio, um dos menores níveis da série recente. Esse movimento, por um lado, sugere que a expansão do crédito ainda não sufoca o orçamento das famílias. Por outro, indica que uma parte delas está usando linhas de crédito menores e de prazo mais curto para bancar despesas correntes, já que a renda não cobre todos os gastos.
No campo da inadimplência, o mercado de trabalho mais aquecido e o aumento da renda têm evitado uma deterioração mais forte. Em maio, 21,1% das famílias paulistanas declararam ter contas em atraso – praticamente estável ante abril (21,0%) e 0,6 ponto percentual abaixo de maio do ano passado (21,7%). Já 8,9% afirmaram não ter condições de pagar as contas no mês seguinte, proporção também estável frente a abril e ao mesmo período de 2025.
A avaliação é que, no curto prazo, o endividamento deve permanecer em patamar elevado, com tendência de leve piora da inadimplência nos próximos meses, ainda dentro de níveis considerados administráveis.
O quadro está longe de configurar uma crise, mas a combinação entre endividamento em máxima recente, prazos de atraso mais longos, expansão do crédito de curto prazo e inflação ainda pressionada acende um sinal de alerta. Qualquer arrefecimento mais relevante do mercado de trabalho pode acelerar a deterioração.
Cartão de crédito no centro do problema
O aumento do endividamento atinge todas as faixas de renda. Entre as famílias com rendimento de até dez salários mínimos, a proporção de endividados passou de 76,3% para 77,5%. No grupo com renda superior a dez salários mínimos, o índice avançou de 63,1% para 64,6%.
O cartão de crédito segue como a principal forma de dívida, citado por 79,3% das famílias, à frente do financiamento habitacional.
O comprometimento de renda com dívidas de prazo de até três meses subiu para 34,3% em maio, ante 33,6% em abril e 27,7% no mesmo mês do ano passado. O movimento é típico do uso intensivo do cartão de crédito, modalidade de curto prazo que vem sendo acionada para manter o padrão de consumo.
Já no horizonte de até um ano, o índice passou de 34,3% para 34,5% e permanece bem abaixo dos 40,4% registrados em maio do ano anterior – faixa associada a financiamentos de maior duração, como compra de imóveis e veículos.
Limites do Desenrola 2.0
Na avaliação da FecomercioSP, as medidas do programa Desenrola 2.0, do governo federal, têm efeito limitado por terem caráter basicamente paliativo. Os descontos ajudam o consumidor que já dispõe de alguma capacidade de pagamento, mas não resolvem a situação de quem simplesmente não consegue honrar seus compromissos.
A eventual liberação de recursos do FGTS pode aliviar pontualmente o quadro, mas também não ataca a raiz do problema. Para a Entidade, o caminho mais efetivo passa por três frentes: redução dos juros ao consumidor, ampliação da educação financeira e políticas voltadas à sustentação consistente da renda das famílias.

















