O custo de vida na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) desacelerou em abril, mas continua em patamar alto e sem sinal claro de alívio para as famílias. Segundo a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), o índice avançou 0,44% no mês, abaixo dos 0,72% registrados em março, mas acumula alta de 4,92% em 12 meses. O reajuste sazonal dos medicamentos foi um dos principais fatores de pressão no período.
Na avaliação da Entidade, o quadro atual mostra uma inflação menos ligada a choques pontuais e mais a fatores estruturais, como a variação dos combustíveis, o encarecimento da logística e o avanço dos custos com saúde. Para o setor automotivo, em especial, o impacto dos combustíveis na cadeia de suprimentos e no transporte de mercadorias segue sendo um ponto de atenção.
O comportamento dos preços é monitorado pelo indicador Custo de Vida por Classe Social (CVCS), calculado pela FecomercioSP com base no Índice de Preços do Varejo (IPV) e no Índice de Preços de Serviços (IPS). O CVCS acompanha a variação de preços de produtos e serviços em oito grupos de consumo que mais pesam no orçamento das famílias. Em abril, nenhum desses grupos registrou queda.
Mesmo com a desaceleração do índice geral, a FecomercioSP considera o cenário preocupante. Os grupos que continuam puxando a inflação — especialmente alimentos e transportes, este ainda pressionado pelo petróleo acima de US$ 100 o barril — têm peso significativo na renda das famílias. A leitura é de que o ambiente de custo de vida elevado deve permanecer nos próximos meses.
Medicamentos lideram pressão sobre o orçamento O maior destaque de abril foi o grupo saúde, que subiu 1,56% após o reajuste nos preços dos medicamentos. Sozinho, o segmento respondeu por cerca de 0,20 ponto porcentual do resultado geral. Os aumentos mais intensos ocorreram em antibióticos (4,6%), hormônios (4,4%), anti-inflamatórios e antirreumáticos (3,8%) e analgésicos e antitérmicos (3,5%). Outros itens farmacêuticos também apresentaram altas disseminadas.
As famílias de menor renda foram as mais afetadas por esse movimento. Na classe E, a variação do grupo chegou a 2%, ampliando a pressão sobre um orçamento já mais restrito.
Alimentos e combustíveis mantêm custo de vida alto O grupo de alimentos e bebidas, item central no custo de vida, registrou alta de 0,48% em abril. O aumento foi puxado principalmente por cortes de carne bovina — como costela, contrafilé, chã de dentro, patinho e alcatra — e por produtos in natura, como tomate, cenoura, alho, cebola e frutas.
Segundo a FecomercioSP, esse avanço está ligado ao encarecimento recente da arroba do boi, custo que vem sendo repassado gradualmente ao consumidor final. Ao mesmo tempo, o aumento dos custos logísticos, alimentado pelo preço dos combustíveis, ajuda a manter os alimentos pressionados nas gôndolas e prateleiras.
Há um ponto de alívio à frente: a arroba bovina já vem registrando quedas sucessivas. Porém, esse recuo ainda deve demorar alguns meses para ser percebido de forma consistente nos preços ao consumidor.
Queda nas passagens aéreas segura parte do índice No grupo transportes, a variação foi de 0,18% em abril. O resultado só não foi maior por causa da forte queda de 11,9% nas passagens aéreas, que compensou parcialmente a alta dos combustíveis. A gasolina subiu 1,8%, enquanto o óleo diesel avançou 3,1%, movimento que impacta diretamente o transporte de cargas e passageiros.
A FecomercioSP, porém, ressalta que a queda nas passagens aéreas é, em grande parte, efeito da metodologia do IBGE, e não de um alívio efetivo nos custos das famílias. Os preços das passagens são coletados com cerca de dois meses de antecedência em relação ao mês de referência. Assim, os reajustes aplicados em abril, especialmente após as altas do querosene de aviação, ainda não aparecem integralmente no índice.
A expectativa é de que o impacto mais forte desse encarecimento surja nos indicadores de junho e julho. Para a Entidade, como os combustíveis seguem pressionando o orçamento da população, a aparente trégua captada em abril não significa um alívio real para o consumidor.
Famílias de menor renda sentem mais Ao analisar o custo de vida por faixa de renda, o CVCS mostra que a alta de abril foi generalizada, mas com diferenças importantes na composição entre as classes. As maiores variações mensais foram observadas nas classes D e A, ambas próximas de 0,45%, enquanto a classe B registrou um aumento mais moderado, em torno de 0,42%.
Entre as famílias de menor renda, os principais vetores de pressão foram saúde, habitação e alimentação — itens essenciais, de difícil substituição. Nas famílias de renda mais alta, os maiores impactos vieram de alimentação (0,48%), artigos do lar (0,47%) e comunicação (0,28%).
No acumulado de 12 meses, as classes de menor renda são as que enfrentam a inflação mais pesada. A classe E registra alta de 5,4%, e a classe D, de 5,32%, acima dos 4,75% da classe A e dos 4,52% da classe B. Ou seja, a inflação é mais sentida na base da pirâmide, onde há menor capacidade de absorver aumentos sem comprometer gastos essenciais.
Além de saúde, alimentos e transportes, outros grupos também subiram em abril: vestuário (0,37%), comunicação (0,28%) e habitação (0,14%).
Índice de Preços do Varejo (IPV) No varejo, os preços subiram 0,68% em abril. Com isso, o IPV acumula alta de 2,88% no ano e de 3,29% em 12 meses. Entre os oito grupos que compõem o indicador, apenas habitação (-0,13%) e educação (-0,03%) apresentaram quedas no mês.
Quando o IPV é analisado por faixa de renda, fica evidente que as classes mais pobres sentem com mais força o aumento dos preços dos produtos. Nas classes D e E, as altas mensais foram de 0,84% e 0,80%, respectivamente. Nas classes A e B, os avanços foram menores: 0,54% e 0,55%.
Índice de Preços de Serviços (IPS) Nos serviços, o IPS registrou alta de 0,18% em abril, acumulando 2,16% no ano e 5,97% em 12 meses. Entre os oito grupos avaliados, apenas transportes teve variação negativa, de -0,82%, influenciada justamente pelo recuo nas passagens aéreas.
Ao observar o IPS por nível de renda, o quadro se inverte em relação ao varejo: as famílias de maior poder aquisitivo foram as mais impactadas pelos aumentos em serviços. Na classe A, a alta mensal foi de 0,38%, e na B, de 0,31%. Já nas classes D e E, houve ligeira queda nos preços de serviços, de -0,12% e -0,10%, respectivamente.
Metodologia do CVCS O Custo de Vida por Classe Social (CVCS) é formado pelo Índice de Preços de Serviços (IPS) e pelo Índice de Preços do Varejo (IPV). O indicador utiliza dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do IBGE e considera cinco faixas de renda familiar (A, B, C, D e E), medindo o efeito das variações de preços na RMSP em 247 itens de consumo.
A estrutura de ponderação é fixa e baseada na participação de cada item de consumo na renda, conforme a POF 2008/2009, para cada faixa de renda e para a média geral. O IPS acompanha 66 itens de serviços; o IPV, 181 produtos.
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