O endividamento das famílias brasileiras alcançou, em maio, o quinto mês consecutivo de alta e renovou o recorde da série histórica, atingindo 81,6%. O dado, da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada nesta quinta-feira (11), escancara a crescente dependência de um tipo de crédito de altíssimo risco: o cartão.
O cartão de crédito segue isolado como a modalidade mais usada no País e está presente na situação de 84,6% das famílias endividadas. O peso desse instrumento acende um alerta adicional porque o rotativo do cartão carrega hoje a maior taxa de juros do mercado, de 428,3% ao ano.
Entre as famílias com renda de até três salários mínimos, o quadro é ainda mais delicado. A inadimplência nesse grupo subiu 1,7 ponto percentual em relação a abril e atingiu 38,6% em maio, um patamar considerado crítico.
Para o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros, os números funcionam como um sinal claro de risco. “Essa sequência de aumentos atinge, principalmente, as famílias de menor poder aquisitivo, pela exposição às taxas decorrentes de atrasos em pagamentos”, afirma. “É preciso garantir que o consumidor possa renegociar essas dívidas e recuperar seu fôlego financeiro.”
Mais famílias se veem como “muito endividadas”
O grupo de famílias que se declara “muito endividado” subiu para 17,0% em maio, o maior percentual desde junho de 2022, o que reforça um ambiente de maior cautela no mercado.
“A pressão de curto prazo sobre o orçamento doméstico empurrou a inadimplência geral para 29,9% em maio”, avalia o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes. “Como os juros ao consumidor final reagem de forma lenta à redução da Selic, o custo de carregar essas dívidas corrói o poder de compra. Isso é agravado pelo comportamento recente da inflação, o que aumenta a percepção de risco das famílias.”
Apesar do cenário desafiador, a pesquisa mostra alguns sinais pontuais de melhora. Um deles é a ampliação dos prazos de pagamento: 33,3% das famílias têm dívidas com prazo superior a um ano. Outro é a leve queda no comprometimento médio da renda com dívidas, que recuou para 29,3%.
Desenrola 2.0 dá fôlego adicional
O tempo médio de atraso das contas em situação de inadimplência caiu para 65 dias. As dívidas com mais de 90 dias de atraso recuaram para 49,3%, o menor nível do ano, movimento associado à melhora da renda média captada pela PNAD Contínua e ao controle mais firme da inflação.
Mesmo assim, as projeções da CNC indicam novas altas do endividamento bruto nos próximos meses. Nesse contexto, as atenções do mercado se voltam para o recém-lançado Desenrola 2.0, programa federal de renegociação de dívidas que chega com a missão de repetir, em 2024, o efeito observado na primeira versão do programa, em 2023, quando houve desaceleração de alguns indicadores de endividamento e inadimplência.

















