Inflação, juros em alta e orçamento doméstico cada vez mais apertado empurraram as famílias brasileiras para um consumo mais básico e defensivo em maio de 2026. O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) registrou queda real de 3,6% nas vendas do varejo em relação ao mesmo mês de 2025, já descontada a inflação. É a maior retração para um mês de maio desde o choque da pandemia e o pior resultado mensal desde março de 2025, quando o índice recuou 3,8%.
O movimento aprofunda a sequência de perdas observada desde o início do ano e confirma um ambiente de maior cautela na ponta do consumo, com as famílias priorizando itens essenciais e adiando compras de maior valor.
“Em maio, o consumidor se mostrou mais racional e seletivo. Com o orçamento pressionado, as famílias estão concentrando o gasto no básico e pesquisando mais preço e promoção antes de fechar a compra”, afirma Carlos Alves, vice-presidente de Tecnologia e Negócios da Cielo.
RETOMADA INTERROMPIDA E QUADRO REGIONAL
Depois de dois meses positivos em abril e maio do ano passado, o varejo voltou ao terreno negativo e não conseguiu ganhar tração em 2026. A desaceleração foi espalhada por todas as regiões do país.
O Centro-Oeste registrou a maior queda em maio, com retração de 4,9%, o pior resultado mensal desde setembro de 2024. No Nordeste, o recuo foi de 3,1%, o mais fraco desde abril deste ano. O Norte caiu 2,4% e também não conseguiu repetir o desempenho do mês anterior. No Sul, a queda foi de 1,9%, igualmente a pior variação desde abril de 2026.
O Sudeste, embora não tenha liderado a queda em termos percentuais, chamou atenção pela profundidade do movimento e pelo peso na economia: a região teve o segundo pior resultado do país e registrou a pior performance para qualquer mês desde março de 2021, ainda sob efeito direto da Covid-19. Como concentra a maior parte da atividade econômica e do consumo, o desempenho regional reforça a leitura de um varejo nacional mais enfraquecido.
“Nenhuma região apresentou crescimento real em maio. O enfraquecimento do consumo é generalizado, o que mostra que o ambiente econômico segue exigindo mais cautela das famílias”, avalia Alves.
DESTAQUES ESTADUAIS
Entre as unidades da Federação, o Amapá foi o destaque positivo, com avanço de 3,1% nas vendas reais, seguido por Sergipe, com alta de 0,9%. Também figuraram entre os cinco melhores desempenhos Acre (-0,3%), Rondônia (-0,5%) e Santa Catarina (-1,1%), todos com recuos mais moderados que a média nacional.
Na outra ponta, Goiás teve a maior retração do país, com queda de 6,7% em maio. São Paulo, maior mercado consumidor, recuou 5,4%. Pernambuco (-5,2%), Rio de Janeiro (-4,7%) e Roraima (-4,5%) completam a lista dos piores resultados.
CALENDÁRIO, DIA DAS MÃES E CONSUMIDOR DEFENSIVO
O próprio calendário de 2026 ajudou a limitar o consumo em maio. Em 2025, o feriado do Dia do Trabalhador caiu em uma quinta-feira e estimulou emendas e gastos com lazer. Neste ano, com o 1º de maio em uma sexta-feira, o impulso extra foi menor.
O Dia das Mães também criou uma base de comparação mais exigente. Em 2025, a data havia impulsionado um crescimento de 6,3% no varejo; em 2026, a alta ligada à data comemorativa foi menor, de 3,6%.
A combinação de inflação ainda acima do centro da meta, juros elevados e renda fortemente comprometida reforça o comportamento defensivo do consumidor, que concentra gastos em moradia, alimentação, transporte e saúde, deixando para depois compras de maior tíquete e serviços ligados a lazer e turismo.
O Banco Central tem chamado atenção para o patamar historicamente alto de endividamento das famílias e para a maior participação de linhas de crédito mais caras na composição dessas dívidas. Em março, o endividamento das famílias no sistema financeiro ficou em 49,8% da renda (49,9% em fevereiro) e o comprometimento de renda alcançou 29,3%. Esses números ajudam a explicar a retração do consumo, inclusive em categorias essenciais.
DO LADO DAS EMPRESAS, CRÉDITO CARO E INADIMPLÊNCIA EM ALTA
O ambiente também é desafiador para o caixa das empresas. A inadimplência segue em níveis recordes, com quase 9 milhões de CNPJs em atraso no fim do primeiro trimestre e o mesmo número em abril, segundo dados da Serasa Experian.
Além do estoque elevado de dívidas, o custo do crédito permanece pressionado. A taxa básica de juros, em 14,5% ao ano, segue em terreno restritivo, e a leitura predominante de mercado é de manutenção desse patamar por mais tempo. Esse cenário dificulta a rolagem de passivos, pressiona o fluxo de caixa e reduz a disposição a investir e a sustentar estoques, o que se reflete sobretudo nos setores de serviços e bens de maior valor.
DESEMPENHO POR MACROSSETOR
O macrossetor de Serviços foi o mais afetado em maio, com retração de 8,9%. O segmento de Turismo e Transporte teve o maior peso nesse movimento, em meio a um forte encarecimento das passagens aéreas e à maior seletividade do consumidor.
Em 2025, abril e maio haviam registrado quedas importantes nos preços das passagens aéreas, estimulando o consumo do setor naquele período. Em 2026, o quadro se inverteu: com o querosene de aviação pressionado pelos conflitos no Oriente Médio, o IPCA-15 acumulou alta de 43,8% em 12 meses para passagens aéreas, o que criou um ambiente bem menos favorável para viagens. Alimentação – Bares e Restaurantes também contribuiu negativamente para o macrossetor de Serviços.
Entre Bens Duráveis e Semiduráveis, o pior desempenho veio de Materiais para Construção, seguido por Vestuário e Artigos Esportivos. O comportamento indica postergação de obras, reformas e compras de maior tíquete em um contexto de crédito mais caro e renda comprometida.
Em Bens Não Duráveis, Drogarias e Farmácias foram o principal detrator, com queda real nas vendas. Supermercados e Hipermercados tiveram o segundo maior impacto negativo, também em terreno real negativo. Isso reflete a pressão de preços captada pelo IPCA-15, que mostrou alta de 1,38% em Alimentação e Bebidas em maio, com alimentos para consumo no domicílio avançando 1,73%. Em prática, o consumidor paga mais caro e leva menos, mesmo em itens básicos.
“Setores ligados a serviços e a compras de maior valor foram os mais penalizados, em um cenário em que juros altos e renda apertada ainda limitam a disposição para consumir”, resume Carlos Alves.
INFLAÇÃO AINDA PESADA EM ITENS ESSENCIAIS
No quadro macroeconômico, o IPCA-15 subiu 0,6% em maio e acumula alta de 4,6% em 12 meses, segundo o IBGE. Entre os grupos que mais pressionam o bolso do consumidor estão Alimentação e Bebidas (+1,4%), Habitação (+1,0%) e Saúde e Cuidados Pessoais (+1,1%), reforçando o foco do gasto em itens básicos.
As passagens aéreas voltaram a subir em maio, com alta de 3,3% depois de uma queda de 14,3% em abril. Esse movimento de preços ajuda a explicar o recuo no consumo de serviços ligados a turismo e mobilidade, justamente em um momento em que o consumidor está mais seletivo.
SOBRE O ICVA
O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) acompanha mensalmente a evolução do varejo brasileiro a partir das vendas realizadas em 18 setores mapeados pela Cielo, abrangendo desde pequenos comerciantes até grandes redes.
O peso de cada setor no resultado final do índice é definido pelo seu desempenho no mês. Desenvolvido pela área de Business Analytics da Cielo, o ICVA busca oferecer uma “fotografia” mensal do comércio varejista do país com base em dados reais de transações.
COMO O ÍNDICE É CALCULADO
A equipe de Business Analytics da Cielo desenvolveu modelos matemáticos e estatísticos aplicados à base de transações da companhia para isolar os efeitos específicos do mercado de credenciamento – como variação de market share, substituição de cheque e dinheiro por meios eletrônicos e o surgimento do Pix.
O objetivo é que o indicador reflita não apenas o movimento de cartões, mas a dinâmica real de consumo no ponto de venda. Por isso, o ICVA não é, em hipótese alguma, prévia de resultados da Cielo, que dependem de diversas outras alavancas de receita, custo e despesa.
ENTENDENDO AS DIFERENTES MEDIDAS DO ICVA
ICVA Nominal – Mede o crescimento da receita nominal de vendas no Varejo Ampliado em comparação com o mesmo período do ano anterior. Corresponde ao que o lojista efetivamente enxerga no faturamento, sem ajuste por inflação.
ICVA Deflacionado – É o ICVA Nominal descontado da inflação. O deflator é calculado a partir do IPCA, do IBGE, ajustado ao mix e aos pesos dos setores incluídos no indicador. Essa medida mostra o crescimento real do varejo, sem o efeito da alta de preços.
ICVA Nominal/Deflacionado com Ajuste de Calendário – Remove do indicador os efeitos de calendário que impactam determinado mês ou período (como feriados móveis ou número de dias úteis), quando comparado ao mesmo intervalo do ano anterior. Essa versão permite observar com mais clareza acelerações e desacelerações no ritmo de crescimento do varejo.

















