Um terço dos moradores de São Paulo já aposta para complementar a renda familiar

Um Terço dos Paulistanos Usa Apostas para Complementar a Renda Familiar: Entenda o Fenômeno

Um terço (35%) dos moradores da capital paulista já aposta em plataformas online com a intenção de complementar a renda familiar de forma rápida. O dado faz parte de um estudo da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) sobre hábitos de apostas, e representa um avanço de 10 pontos porcentuais em relação à pesquisa realizada em 2024.

Em contrapartida, diminuiu o grupo que aposta com viés de investimento: de 9%, em 2024, para 5% em 2026. Quase 1 em cada 10 entrevistados (7%) afirma já se considerar viciado em jogos.

Na avaliação da FecomercioSP, o cenário se torna mais preocupante quando analisado por classe de renda. Entre os que ganham até dois salários mínimos (cerca de R$ 3 mil), 40% apostam para reforçar o orçamento doméstico. Esse percentual cai para 30% na faixa entre dois e cinco salários mínimos e para 29% entre famílias com renda de cinco a dez salários mínimos.

O recorte indica que justamente quem está em situação de maior vulnerabilidade financeira tem recorrido com mais força a um consumo de alto risco como alternativa para enfrentar as dificuldades do orçamento.

A proporção de pessoas que apostam com frequência segue elevada: metade da população (50%), o mesmo patamar de dois anos atrás. Nas faixas de renda mais baixa e média, o uso regular das plataformas é maior do que entre aqueles com rendimentos mais altos, reflexo da maior pressão por ampliar a renda disponível.

Menos poupança, mais exposição ao risco

Mudou também o destino declarado do dinheiro que hoje vai para as apostas, caso essas plataformas não existissem. Um quarto dos paulistanos (26%) diz que, se não apostasse, guardaria esse valor; na pesquisa anterior, eram 19%.

Outra parcela relevante afirma que usaria os recursos para itens essenciais: 14% mencionam o pagamento de contas domésticas e 13% a compra de alimentos. Esses dados sugerem que as apostas passaram a disputar espaço direto com o consumo básico das famílias e com a própria organização financeira do dia a dia.

Entre homens e mulheres, há diferenças importantes: 18% das mulheres dizem que usariam o dinheiro das apostas para comprar comida, contra 11% dos homens. Elas também destinariam mais aos pagamentos de contas (18% versus 13%). Já os homens indicam que poupariam mais (28%) do que as mulheres (18%).

Endividamento para seguir apostando

Um ponto que acende alerta na leitura da FecomercioSP é o fato de 12% dos paulistanos terem buscado algum tipo de ajuda financeira para continuar apostando. Desse total, 5% pediram dinheiro a amigos ou familiares e 4% recorreram a empréstimos bancários.

Do ponto de vista socioeconômico, o dado é sensível: ele mostra que 1 em cada 10 moradores da cidade já teve a renda comprometida por causa das apostas e precisou de terceiros para reorganizar as finanças.

Apesar disso, o tíquete médio mensal continua relativamente baixo, reforçando a ideia do “pequeno apostador”. Mais da metade dos entrevistados (54%) declara gastar até R$ 50 por mês com apostas; 16% desembolsam até R$ 100 e 12% chegam a R$ 200 mensais. Os percentuais se aproximam dos registrados em 2024, embora tenha crescido de forma expressiva o grupo que concentra gastos de até R$ 100.

Expansão rápida em ambiente econômico frágil

Para a FecomercioSP, o quadro é negativo e revela uma cidade – reflexo do cenário nacional – impactada socioeconomicamente pela disseminação das apostas online. Entre os fatores que impulsionam esse fenômeno, a entidade destaca:

– exposição cada vez maior das casas de apostas nas redes sociais; – popularização dos meios de pagamento instantâneos, com 96% dos apostadores usando Pix; – explosão de novas plataformas acessíveis diretamente pelo smartphone.

Esse avanço ocorre num contexto de economia pressionada por alto endividamento e juros elevados. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de abril, da própria FecomercioSP, mostrou que 72,9% das famílias paulistanas estavam endividadas – o maior nível em três anos. Em cada dez famílias, duas (21%) estavam inadimplentes.

Diante desse cenário, a FecomercioSP volta a cobrar das autoridades a implementação efetiva de políticas de regulamentação e fiscalização das apostas online, com atenção especial às plataformas não autorizadas e ilegais. A entidade defende que regras mais claras e fiscalização ativa possam atenuar os impactos socioeconômicos apontados pelos dados, além de embasar programas de orientação e proteção aos consumidores que hoje integram esse universo.