Prever a demanda sempre foi um dos maiores desafios do Aftermarket Automotivo. A base desse mercado é uma frota gigantesca, formada por milhões de veículos, centenas de marcas e milhares de aplicações. Agora, com o avanço de novas tecnologias, o fortalecimento das montadoras chinesas e a gradual eletrificação do parque circulante, essa equação ficou ainda mais complexa.
Um estudo recente da consultoria norte-americana Schwartz Advisors, porém, indica que o futuro da reposição pode ser menos ameaçador do que se imagina. O ponto central não é a redução do mercado, e sim a redistribuição da demanda entre produtos, sistemas e perfis de veículos.
Usando um modelo proprietário que analisa mais de 100 categorias de produtos, a empresa projeta que a frota circulante dos Estados Unidos — hoje em torno de 290 milhões de veículos, sendo 99 milhões leves — seguirá crescendo cerca de 1% ao ano pelas próximas duas décadas, o equivalente à entrada de mais três milhões de veículos por ano. Só a partir da década de 2040, com a possível expansão de frotas autônomas e compartilhadas, esse ritmo começaria a cair, podendo levar a uma redução do número total de veículos no longo prazo.
É fundamental lembrar que todo o estudo se refere ao mercado norte-americano, com características próprias em relação ao Aftermarket brasileiro. Ainda assim, como é tradição nas publicações da Nhm Novomeio Hub de Mídia, o benchmarking segue sendo um instrumento valioso. A ideia aqui é oferecer referências para os estrategistas da reposição independente no Brasil.
Enquanto o volume total de veículos cresce, a composição da frota muda rapidamente — e é essa mudança que tende a redesenhar o mercado de reposição.
Hoje, quase 30% dos veículos em circulação nos EUA têm mais de 16 anos. Já os automóveis que formam o chamado “ponto doce” do aftermarket — modelos entre quatro e onze anos de uso — respondem por apenas 41% da frota, algo como 119 milhões de unidades. Essa frota envelhecida empurra a demanda para serviços de manutenção prolongada e aumenta a complexidade das intervenções nas oficinas.
Combustão interna continuará no jogo por muito tempo
No campo dos sistemas de propulsão, o estudo contraria as previsões mais agressivas de eletrificação feitas nos últimos anos. Para a Schwartz Advisors, os veículos elétricos a bateria (BEVs) avançarão, mas de forma mais gradual. A consultoria projeta que eles representarão 8,4% das vendas de veículos novos em 2025, subindo para 29% em 2035 e chegando a 43,7% em 2050. Na frota circulante, porém, a participação deve ser menor, alcançando 38,3% no fim do período.
Essa diferença é decisiva: ela derruba a tese de uma substituição rápida e massiva dos motores a combustão. Por muitas décadas, diferentes tecnologias deverão conviver nas oficinas. Em vez de eliminar a demanda por peças, a eletrificação tende a deslocar oportunidades entre diversas categorias.
O sistema de freios é um bom exemplo. A frenagem regenerativa dos veículos elétricos pode reduzir em cerca de 50% a necessidade de troca de discos, pastilhas e pinças em relação aos veículos convencionais. Mesmo assim, o crescimento da frota evita uma queda equivalente no mercado total. Comparado aos níveis atuais, o volume de peças de freio em 2050 seria apenas 4,9% menor do que o registrado em 2025 nos Estados Unidos.
Outras linhas, ao contrário, devem ser beneficiadas. O maior peso dos veículos elétricos e o torque elevado disponível desde baixas rotações tendem a acelerar o desgaste de componentes de suspensão, transmissão e direção. A consultoria estima que a demanda por esses itens pode crescer 33,4% em volume até 2050, enquanto a receita praticamente dobraria, com alta de 94,4%.
Os pneus também aparecem como grandes ganhadores nessa transição. A combinação de veículos mais pesados com sistemas de tração integral vem impulsionando o setor. Entre 2015 e 2025, as vendas de pneus nos EUA subiram de US$ 45 bilhões para US$ 65 bilhões.
Já os componentes diretamente ligados aos motores a combustão devem perder espaço. As velas de ignição são o caso mais emblemático: a projeção é de queda de 32,9% no volume comercializado até 2050, acompanhando a redução gradual da participação dos veículos movidos exclusivamente por motores térmicos.
Sinal amarelo para o varejo de autopeças
Em vez de apontar os elétricos a bateria como vencedores absolutos, os analistas da Schwartz Advisors apostam em uma solução intermediária. Os veículos elétricos de autonomia estendida, os EREV, surgem como candidatos fortes para o futuro. Nesse conceito, um pequeno motor a combustão atua apenas como gerador, alimentando a bateria que efetivamente movimenta o veículo.
Essa aposta ganha peso com o protagonismo crescente da indústria chinesa. Segundo a consultoria, os fabricantes chineses já operam com uma vantagem de custo entre 20% e 40% em relação aos concorrentes ocidentais e encurtaram os ciclos de desenvolvimento de novos modelos para apenas 18 meses. Enquanto isso, montadoras tradicionais ainda trabalham com prazos de quatro a cinco anos. A influência chinesa também se projeta sobre os sistemas de propulsão: só em 2026, 18 novos modelos EREV devem ser lançados na China.
As mudanças, no entanto, vão além dos veículos. Elas atingem também a estrutura de poder dentro do aftermarket. A Schwartz Advisors avalia que o centro de gravidade do setor está migrando do varejo de autopeças para os players que controlam a prestação de serviços. A consolidação de oficinas em grandes grupos, muitas vezes apoiados por fundos de private equity, e a tendência de verticalização das concessionárias podem transformar reparadores em protagonistas das decisões de compra.
Nesse cenário, a consultoria argumenta que, no futuro, a simples disponibilidade de peças pode pesar menos do que a capacidade de manter veículos e frotas operando sem paradas inesperadas.
Ou seja: a próxima disputa do aftermarket talvez não seja vencida por quem tiver o maior estoque, mas por quem conseguir ler melhor a frota que ainda está por vir.
Em um mercado cada vez mais fragmentado e tecnologicamente diverso, a habilidade de prever a demanda pode se tornar tão estratégica quanto a própria capacidade de fabricar peças.

















