A implementação do split payment, previsto na reforma tributária do consumo, deve mudar de forma significativa a gestão financeira das empresas brasileiras. Embora não aumente a carga de impostos, o novo modelo altera o momento do recolhimento, reduzindo o volume de recursos que hoje ficam temporariamente no caixa das companhias.
Com a entrada gradual do novo sistema, baseado no Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e na Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), gestores financeiros, contadores e empresários terão de revisar estratégias de capital de giro e de fluxo de caixa para se adequar às novas regras.
O que é o split payment?
O split payment, ou pagamento dividido, está previsto na Lei Complementar nº 214/2025, que regulamenta a reforma tributária instituída pela Emenda Constitucional nº 132/2023.
Nesse modelo, o valor correspondente ao IBS e à CBS pode ser automaticamente segregado no momento da liquidação financeira da operação.
Na prática, quando a venda é realizada, a parte referente aos tributos é direcionada diretamente ao ambiente de arrecadação, enquanto a empresa recebe apenas o valor líquido da operação.
A proposta é reduzir a inadimplência tributária, combater fraudes, aumentar a eficiência da arrecadação e simplificar a fiscalização.
O que muda para o fluxo de caixa?
No sistema atual, a empresa recebe o valor total da venda e recolhe os tributos posteriormente.
Esse intervalo faz com que os recursos permaneçam disponíveis no caixa por um período, podendo ser utilizados para financiar operações, recompor estoques, pagar fornecedores ou cobrir despesas operacionais.
Com o split payment, essa dinâmica muda. Como a parcela referente ao IBS e à CBS será destinada automaticamente ao Fisco, a empresa deixa de contar com esse montante entre a data da venda e o vencimento dos tributos.
A carga tributária não se altera, mas a liquidez operacional diminui.
Exemplo prático
Em uma venda de R$ 100 mil, pelo modelo atual a empresa recebe integralmente esse valor e recolhe os tributos em momento posterior.
Com o split payment, considerando uma carga tributária de R$ 28 mil, esse valor pode ser retido automaticamente, fazendo com que apenas R$ 72 mil ingressem de imediato no caixa.
O lucro da operação não muda, mas a disponibilidade de caixa é menor.
Impacto será maior a partir de 2027
Embora a reforma já esteja em fase de implementação, 2026 será, na prática, um ano de testes.
Ao longo desse período, as empresas devem concentrar esforços na adaptação de:
- Sistemas de gestão (ERP);
- Emissão de documentos fiscais;
- Cadastros de produtos e clientes;
- Processos internos;
- Treinamento das equipes fiscal, financeira e contábil.
Os impactos financeiros mais relevantes tendem a aparecer a partir de 2027, com a substituição gradual dos tributos atuais pelo IBS e pela CBS.
Capital de giro exigirá novo planejamento
Companhias que hoje utilizam, ainda que parcialmente, os valores destinados aos tributos como fonte de capital de giro terão de rever suas projeções financeiras.
Quanto maior o faturamento e a carga tributária incidente sobre as operações, maior tende a ser a redução do volume de recursos disponíveis no caixa.
Esse cenário pode elevar a necessidade de:
- Capital de giro próprio;
- Antecipação de recebíveis;
- Linhas de crédito de curto prazo;
- Financiamentos bancários.
Quais setores podem sentir mais os efeitos?
Os efeitos devem ser mais intensos em empresas com ciclos financeiros longos ou margens apertadas.
Entre os segmentos mais sensíveis estão:
- Indústrias;
- Distribuidores;
- Construção civil;
- Fabricantes de bens de capital;
- Empresas de serviços corporativos;
- Varejo de baixa margem.
Nesses casos, a redução da liquidez tende a exigir ajustes relevantes na gestão financeira.
Gestão dos créditos tributários ganha importância
Outro ponto crítico é o controle dos créditos de IBS e CBS.
Assim como em outros modelos de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) adotados no exterior, a recuperação de créditos dependerá diretamente da qualidade das informações fiscais e da conformidade das operações.
Por isso, as empresas precisarão reforçar o controle sobre:
- Escrituração fiscal;
- Documentos eletrônicos;
- Cadastro de fornecedores;
- Conciliações tributárias;
- Integrações entre sistemas.
Falhas nesses processos podem comprometer o aproveitamento de créditos e gerar impacto financeiro adicional.
Empresas devem iniciar a preparação ainda em 2026
Especialistas recomendam que a preparação para o split payment ocorra antes da entrada plena do novo modelo.
Entre as principais ações sugeridas estão:
- Revisar as projeções de fluxo de caixa para 2027 e 2028;
- Reavaliar a necessidade de capital de giro;
- Mapear fornecedores e riscos na cadeia de créditos tributários;
- Integrar sistemas financeiros, fiscais e contábeis;
- Automatizar processos de controle e conciliação.
A expectativa é que o split payment se torne uma das mudanças mais relevantes da reforma tributária sob a ótica financeira, exigindo atuação coordenada das áreas fiscal, contábil, financeira e de tecnologia para mitigar impactos sobre a liquidez das empresas na transição para o novo sistema.
















