Descontos de até 90% em dívidas de cartão de crédito
O consumidor paulistano ainda demonstra confiança em relação ao futuro, mas já sente com mais força o peso das contas no presente. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), recuou 0,4% em maio, para 120,6 pontos, ante 121,1 pontos em abril.
Na comparação com maio de 2025, porém, o indicador mostra alta de 7,9%, o que indica que a confiança segue em patamar elevado, embora em um movimento claro de acomodação do ciclo de consumo [gráfico 1].
[GRÁFICO 1] Índice de Confiança do Consumidor (ICC) Série histórica (13 meses) Fonte: FecomercioSP
A FecomercioSP avalia que, para entender esse momento, é preciso olhar para o ambiente econômico atual. A taxa básica de juros (Selic) está em 14,5% ao ano, encarecendo o crédito e dificultando compras parceladas e financiadas.
Ao mesmo tempo, a inflação — especialmente em Serviços — continua pressionada, com projeções do mercado próximas de 4,9% para 2026, acima do centro da meta. Nesse cenário, o consumidor não deixa de consumir, mas passa a selecionar melhor: planeja mais, compara preços com maior frequência e adia aquisições de maior valor.
O ICC é composto por dois subíndices, que se moveram em direções opostas em maio. O Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA), que mede a percepção do consumidor sobre a situação presente, caiu de 119,1 pontos em abril para 112,4 pontos em maio — retração de 5,6% no mês, refletindo maior insegurança das famílias em relação às finanças do curto prazo.
Já o Índice de Expectativas do Consumidor (IEC), que capta a visão sobre o futuro próximo, avançou de 122,4 para 126 pontos, alta de 2,9% no mês e de 7,5% em relação a maio do ano passado. O resultado indica que o paulistano continua acreditando em meses melhores à frente, embora esteja mais desconfortável com o momento atual [gráfico 2].
[GRÁFICO 2] Índice das Condições Econômicas Atuais (ICEA) e de Expectativas do Consumidor (IEC) Série histórica (13 meses) Fonte: FecomercioSP
Pessimismo é mais intenso entre os mais velhos
A queda do ICEA foi mais forte entre consumidores com 35 anos ou mais (-7,3% no mês), famílias com renda de dez salários mínimos ou mais (-7%) e mulheres (-6%). São grupos que, em geral, têm maior resiliência financeira e que agora exibem de forma mais clara a pressão das contas no curto prazo.
No caso das expectativas, entretanto, o IEC mostra que foram justamente os jovens com menos de 35 anos (5,8%), as mulheres (4,9%) e as famílias de maior renda (5%) os mais otimistas em relação ao futuro. Isso sugere que esses grupos veem algum alívio à frente, ainda que hoje estejam mais apertados financeiramente. No ICC agregado, o contraste por faixa etária também se destaca: consumidores com menos de 35 anos registraram alta de 1,6% no mês, enquanto os de 35 anos ou mais recuaram 3,8%.
Um elemento que pode estar ajudando a sustentar as expectativas é o novo Desenrola Brasil, programa que prevê descontos de até 90% em dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.
A FecomercioSP pondera que o programa tende a melhorar a percepção das famílias sobre sua capacidade futura de reorganizar as finanças. Porém, seus efeitos diretos sobre o consumo devem ser graduais e dependem da adesão efetiva, das condições oferecidas pelas instituições financeiras e da real capacidade de pagamento das famílias.
Intenção de consumo acumula terceira queda seguida
Esse movimento de acomodação também aparece na Intenção de Consumo das Famílias (ICF), indicador mensal da FecomercioSP que mede a disposição dos lares em consumir. Em maio, o ICF recuou 0,2%, para 113,2 pontos — terceira queda consecutiva —, mas ainda apresenta alta de 8,6% em relação ao mesmo mês do ano passado e permanece acima dos 100 pontos, faixa que indica predisposição ao consumo [gráfico 3].
[GRÁFICO 3] Índice de Intenção de Consumo das Famílias (ICF) Série histórica (13 meses) Fonte: FecomercioSP
Segundo a Entidade, o mercado de trabalho aquecido é o principal fator que mantém o ICF em terreno positivo. O componente “emprego atual” avançou 2,6% no mês, chegando a 142,4 pontos, enquanto “renda atual” subiu 0,9%, para 140,3 pontos — os dois maiores níveis entre os itens do indicador. Em termos práticos, a maior parte dos paulistanos segue empregada e com renda em patamar que permite manter o consumo, mesmo em um ambiente de crédito mais caro.
A pressão aparece com mais força nas compras a prazo. O componente “momento para duráveis”, que mede a disposição para adquirir bens de maior valor — como geladeiras, televisores e automóveis, em geral financiados ou parcelados —, caiu 5,8% no mês, para 80,9 pontos, faixa associada ao pessimismo. Já o item “acesso ao crédito” recuou 1%, para 112,1 pontos. Ambos refletem o impacto direto da Selic elevada, que encarece o financiamento e reduz o apetite por compras de maior ticket.
Na análise por faixa de renda, as famílias com até dez salários mínimos registraram alta de 10,2% no ICF, na comparação anual, sustentadas por emprego e renda em expansão. Entre as famílias de renda mais alta, o avanço foi menor, de 4,5% no mesmo período, com comportamento mais cauteloso em relação às compras não essenciais e passíveis de adiamento.
Impactos sobre o varejo
Os números de maio apontam para uma mudança de perfil do consumo, e não para uma reversão brusca. O consumidor paulistano não saiu do mercado, mas passou a agir com mais cuidado, atenção a preços e maior seletividade. É um padrão típico de fase de acomodação do ciclo econômico: o consumo perde intensidade gradualmente, concentra-se em itens essenciais e em compromissos financeiros menores.
Para o varejo, o momento exige mais precisão estratégica. Segmentos fortemente dependentes de crédito e parcelamento — como eletrodomésticos, eletrônicos e veículos — tendem a continuar enfrentando maior volatilidade na demanda. Já setores ligados à conveniência, a serviços essenciais e ao consumo do dia a dia têm chances maiores de desempenho mais estável.
Empresas que ajustarem com precisão suas políticas de preço, investirem em promoções bem segmentadas e comunicarem de forma clara sua proposta de valor estarão melhor posicionadas para atravessar esse período de consumo mais moderado e seletivo.
















