Copom vai reduzir a Selic para dar credibilidade ao ciclo de cortes, mas momento exige cautela, avalia FecomercioSP

FecomercioSP avalia que Copom deve reduzir Selic para dar credibilidade ao ciclo de cortes, mas alerta para cautela no momento

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve reduzir a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto percentual na reunião que se encerra amanhã (29). Mais do que resposta a uma melhora do ambiente econômico, o movimento é um recado: o BC quer preservar a credibilidade do ciclo de cortes iniciado no encontro anterior.

Do ponto de vista do cenário macroeconômico, porém, haveria argumentos para uma postura mais conservadora. A inflação acumulada em 12 meses está em 4,1%, acima da meta de 3%. O quadro é ainda mais sensível quando se observa o comportamento dos preços de serviços, setor central para a atividade econômica e para o custo operacional de toda a cadeia automotiva, que sobem a uma taxa anual de 6%.

O mercado já incorporou essa piora nas expectativas: as projeções para o IPCA em 2026 estão em 4,86%, portanto acima do teto da meta definida pelo BC, de 4,5%. Mesmo a estimativa para 2027, de 4%, segue superior ao centro da meta. Com esse horizonte desancorado, o Banco Central perde espaço para acelerar ou aprofundar o ritmo de queda de juros sem correr o risco de reacender pressões inflacionárias.

O cenário internacional adiciona mais incerteza. A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, com impactos diretos sobre o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, já afeta o mercado global de petróleo. Cerca de 20% do petróleo bruto mundial passa por esse corredor marítimo. O resultado é um choque de preços: o barril de Brent superou os US$ 110 em abril, em reação aos bloqueios na região. Para um país ainda dependente de combustíveis fósseis no transporte e na logística, como o Brasil, isso representa pressão adicional de custos em toda a cadeia produtiva, inclusive na automotiva.

Há ainda um terceiro fator determinante: a situação das contas públicas. Com um quadro fiscal frágil, ausência de reformas estruturais relevantes e crescimento contínuo das despesas obrigatórias, o Banco Central acaba obrigado a compensar parte desse desequilíbrio via juros mais altos, para conter o risco de deterioração da inflação e do câmbio.

Na prática, o recado é claro: o BC só terá condições de acelerar o ciclo de cortes da Selic quando houver um compromisso firme do governo com o equilíbrio fiscal. O problema é que a tradição brasileira em anos eleitorais costuma ir na direção oposta, com expansão de gastos em busca de apoio nas urnas. Diante disso, a autoridade monetária tende a manter uma postura defensiva.

A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP) projeta, inclusive, uma trajetória de juros mais altos por mais tempo do que o mercado vinha antecipando. A expectativa da Entidade é que a Selic encerre o ano próxima de 13%, cenário que pressupõe reuniões do Copom sem novos cortes em determinados momentos.

Para a FecomercioSP, só um ajuste fiscal consistente permitirá uma redução sustentável dos juros. Sem isso, o País seguirá preso a um ambiente de custo financeiro elevado, incerteza prolongada e encarecimento do crédito para empresas e consumidores — um entrave direto ao investimento, à renovação de frota, à expansão de redes de concessionárias e ao planejamento de longo prazo de toda a cadeia automotiva.