A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) vem a público reforçar a necessidade de manter, integralmente, o cronograma de recomposição tarifária para a importação de automóveis elétricos e de encerrar, em definitivo, as cotas de importação de kits para montagem de veículos sem recolhimento de tributos. As duas medidas resultam de um amplo debate sobre o futuro da política industrial brasileira e refletem compromissos assumidos pelo Governo Federal com os fabricantes instalados no país no ano passado. Cumprir o que foi anunciado é garantir previsibilidade e estabilidade às regras que embasaram as novas decisões de investimento do setor automotivo no Brasil.
A política de transição das alíquotas de importação para veículos elétricos foi definida em 2023 e aperfeiçoada em 2025, após um processo intenso de discussão entre governo e indústria. O cronograma atual é considerado um ponto de equilíbrio: permite avançar na eletrificação da frota nacional e, ao mesmo tempo, estimula investimentos produtivos locais, com potencial de gerar empregos de qualidade, renda, inovação e desenvolvimento de longo prazo.
A recomposição tarifária em andamento, depois de um longo período de redução de impostos, não reduz o grau de abertura comercial necessário para atrair novos competidores. A evidência está na entrada de novas marcas no país: apenas no primeiro trimestre deste ano, onze novas fabricantes passaram a atuar no mercado brasileiro.
Em paralelo, o crescimento dos estoques acende um sinal de alerta. Impulsionados pelos importados, chegaram a 150 dias em maio de 2026. Esse movimento indica que o período de tarifas reduzidas vem sendo aproveitado por algumas empresas para antecipar importações, o que tende a distorcer as condições de competição para as montadoras instaladas no Brasil.
Com base nas regras pactuadas, as fabricantes locais reforçaram sua aposta no país. Foram anunciados mais de R$ 140 bilhões em investimentos até 2033, voltados à eletrificação, descarbonização, engenharia, pesquisa e expansão da cadeia de suprimentos. Além disso, associadas da Anfavea ampliaram seus portfólios, fecharam parcerias com novas marcas e fortaleceram os planos de produção nacional. Tudo isso sem reivindicar novas cotas ao governo ou alterações nas regras previamente combinadas.
Os resultados começam a aparecer: em 2025, veículos eletrificados produzidos no Brasil responderam por 26% das vendas do segmento; em 2026, essa fatia já chega a 40%. Ainda assim, os emplacamentos de modelos importados cresceram 214% entre 2023 e 2025, o que reforça que a recomposição gradual das tarifas não tem sido um obstáculo à expansão do mercado.
O desafio brasileiro hoje não é acelerar a eletrificação, que já avança em ritmo consistente, mas assegurar que essa transição venha acompanhada de mais engenharia e inovação no país, de uma cadeia de fornecedores mais robusta e de empregos cada vez mais qualificados. A eletromobilidade trará mais benefícios quanto maior for a capacidade de o Brasil agregar valor localmente e fortalecer sua base industrial e tecnológica.
A Anfavea reconhece que a utilização de kits importados pode ter papel relevante nas fases iniciais de implantação de unidades industriais. No entanto, essa estratégia deve evoluir para a integração produtiva, o desenvolvimento de fornecedores locais e a incorporação de tecnologia, e não se transformar em modelo de alto volume, sob pena de distorcer a concorrência e desestimular investimentos estruturantes no país.
Transformar instrumentos transitórios em mecanismos permanentes reduz o estímulo à agregação de valor nacional. Esse risco já é perceptível no uso das cotas, concebidas como ferramenta de transição, mas apropriadas de forma desproporcional por algumas empresas para ampliar estoques de importados, sem qualquer adensamento da indústria local.
Estudo da Anfavea indica que a eventual massificação da montagem de veículos a partir de kits importados poderia representar uma perda potencial de R$ 96,8 bilhões em vendas para o setor de autopeças, redução de R$ 24,3 bilhões na arrecadação federal e eliminação de cerca de 68 mil empregos diretos e 191 mil postos em toda a cadeia.
Diante desse cenário, a Anfavea defende:
– A manutenção integral do cronograma de recomposição tarifária já definido, sem adiamentos; – A não renovação das cotas de importação com alíquota zero, encerradas em janeiro de 2026; – A não criação de ex-tarifários ou mecanismos que, na prática, posterguem o cronograma; – A realização de diálogo prévio com a indústria sempre que houver intenção de alterar as condições que sustentaram os investimentos anunciados.
Mudar as regras na reta final de sua implementação compromete a confiança de quem investiu com base nelas. Mais do que volumes de produção, está em jogo a capacidade do Brasil de preservar investimentos, ampliar competitividade e consolidar-se como polo de engenharia, inovação e desenvolvimento na nova mobilidade.

















