Depois de liderar a retomada da economia nos últimos anos, o setor de serviços começa a dar sinais claros de acomodação. Os dados de abril da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, mostram uma atividade praticamente estável em um patamar elevado. Ao mesmo tempo, a diferença crescente entre faturamento e volume efetivamente prestado reforça a persistência da inflação de serviços, hoje um dos principais entraves para a redução da taxa básica de juros.
O quadro é de um mercado que ainda mantém demanda consistente, mas já não oferece o mesmo espaço para a expansão acelerada vista logo após a pandemia. Atualmente, o setor opera apenas 0,3% abaixo do maior nível da série histórica, registrado em outubro de 2025, e cerca de 20% acima do período pré-pandemia.
Mais relevante do que a variação mensal é a desaceleração gradual do ritmo de crescimento. Na comparação com abril do ano passado, os serviços avançaram 1,9%, acumulando 25 resultados positivos consecutivos. Apesar da sequência robusta, a expansão já não é tão disseminada: pouco mais da metade das atividades pesquisadas cresceu, o que indica um ambiente mais seletivo para os negócios.
Tecnologia continua puxando o setor
Entre os segmentos, tecnologia segue como principal motor da atividade. O grupo de informação e comunicação cresceu 6,3% em relação a abril de 2024, enquanto os serviços de Tecnologia da Informação (TI) avançaram 9,6%.
A demanda por desenvolvimento de software, consultorias especializadas e serviços de hospedagem e gestão de dados permanece aquecida, acompanhando a digitalização das empresas e a busca por ganhos de produtividade em toda a cadeia, da indústria à prestação de serviços.
Na direção contrária, o transporte perdeu ritmo. O segmento recuou 1,4% na comparação anual, puxado sobretudo pelo transporte aéreo, que caiu 12%. Custos elevados, câmbio desfavorável e a normalização da demanda após o pico do pós-pandemia ajudam a explicar esse desempenho mais fraco.
O ponto mais sensível está nos preços
Para quem está à frente da gestão das empresas, o principal sinal de alerta não está no volume de serviços, mas na dinâmica da receita.
Enquanto o volume da atividade cresceu 1,9% em termos reais, a receita nominal avançou 8,1% no mesmo período. Em 12 meses, o descompasso continua significativo: alta de 7,5% no faturamento contra 2,9% de crescimento do volume.
Na prática, isso mostra que boa parte da expansão da receita ainda vem de reajustes de preços, e não de um aumento efetivo da demanda. Esse movimento confirma a persistência da inflação de serviços, tradicionalmente uma das componentes mais rígidas da inflação no Brasil.
Diante desse cenário, o planejamento financeiro das empresas exige mais cautela. Embora ainda exista alguma margem para repasse de custos em parte do mercado, a desaceleração da atividade indica que essa capacidade deve encontrar limites mais claros nos próximos meses.
Do ponto de vista macroeconômico, o recado é direto: com o setor de serviços operando próximo ao pico histórico, mercado de trabalho ainda aquecido e inflação resistente, o Banco Central encontra poucos argumentos para iniciar um ciclo consistente de corte de juros. O resultado é a manutenção de condições financeiras mais apertadas para empresas e consumidores.
Na avaliação da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), os números confirmam que o setor entrou em uma fase de acomodação após o forte ciclo de expansão do pós-pandemia. Mesmo em um nível elevado de atividade, a tendência é de crescimento mais moderado, o que reforça a importância de ganhos de produtividade, eficiência operacional e diferenciação competitiva como pilares centrais para a estratégia dos negócios.

















