Consumo perde ritmo, apostas crescem e atacado ganha destaque em 2026

Tendências para 2026: Consumo em Desaceleração, Apostas em Alta e Atacado em Destaque

O ambiente econômico continua pressionado por juros altos, endividamento das famílias e perda de poder de compra.

O brasileiro entrou em 2026 mais apertado financeiramente, mais exigente nas escolhas e disputado por um número inédito de categorias, plataformas e serviços. A análise foi apresentada por Pietro Bastos, gerente da NielsenIQ Brasil, em reunião de maio do Conselho do Comércio Atacadista da FecomercioSP, ao detalhar os principais movimentos do consumo e do atacado no País.

Segundo Bastos, a combinação de juros elevados, aumento do endividamento e inflação de serviços desacelerou o consumo ao longo de 2025 e segue condicionando o comportamento do consumidor neste ano. “O consumo das famílias perdeu fôlego, impactado por juros, endividamento e inflação de serviços, principalmente no último trimestre”, afirmou.

Mesmo com um PIB em alta de 2,3%, crescimento da renda de 3,8% e taxa de desemprego em 5,2%, o consumo das famílias avançou apenas 1,3%, o que evidencia um orçamento doméstico cada vez mais pressionado.

Bolso do consumidor mudou

Um dos pontos centrais do estudo é a mudança na matriz de gastos dos brasileiros. Dados da NielsenIQ mostram que o consumo voltado ao abastecimento do lar perdeu espaço no orçamento, enquanto despesas secundárias, contas da casa e outras dívidas ganharam peso.

A participação dos produtos de abastecimento doméstico no orçamento caiu de 23,2% em 2023 para 21,9% em 2025. Já os chamados gastos secundários subiram de 29,2% para 31,4% no mesmo período.

O levantamento também indica que os consumidores de baixa renda passaram a depender mais do cartão de crédito para fechar as contas básicas do mês. Famílias com renda de até dois salários mínimos destinam mais de 60% dos ganhos a alimentação e higiene, enquanto as faixas intermediárias sentem cada vez mais o peso das contas domésticas. “Quanto menor a renda, maior o nível de endividamento com cartão de crédito”, resumiu Bastos.

‘Bets’, streaming e plataformas entram na briga pelo orçamento

A “disputa generalizada pelo bolso do consumidor” é outro movimento relevante. Categorias que antes não concorriam diretamente com o varejo alimentar agora abocanham uma fatia considerável da renda das famílias.

Jogos de aposta, plataformas digitais, serviços de streaming, aplicativos de mobilidade e compras internacionais passaram a disputar o mesmo dinheiro que antes ia para o consumo tradicional. O mercado de apostas esportivas já movimenta cerca de R$ 360 bilhões, patamar semelhante ao dos serviços de streaming.

As apostas esportivas surgem como um dos fenômenos mais marcantes. De acordo com a NielsenIQ, 26% dos lares brasileiros afirmam participar regularmente de jogos e apostas, o dobro registrado no ano anterior. Quase metade desses apostadores diz ter como principal motivação o aumento de renda.

A preocupação de varejistas e atacadistas é que parte desse gasto já substitui despesas essenciais. Entre os consumidores que declararam trocar gastos do lar por apostas, 47% cortaram despesas com alimentação e 45% reduziram o pagamento de contas domésticas.

Consumidor leva menos itens para casa

A desaceleração também aparece na cesta de compras: o número de itens por ocasião de compra caiu de forma contínua ao longo de 2025. No quarto trimestre, a retração chegou a 6,5%, e o acumulado dos canais apurou queda de 8% em unidades compradas.

Na avaliação de Bastos, isso ajuda a explicar por que parte do crescimento registrado no varejo está mais ligada a reajuste de preços do que a aumento real de volume. O desempenho, porém, é desigual entre os canais. Enquanto redes de farmácia cresceram 5,6% em volume, bares, mercearias e varejo independente registraram quedas significativas.

Dentro das farmácias, o destaque foi o avanço acelerado dos medicamentos para emagrecimento. Em 2026, oito dos dez produtos mais vendidos na cadeia farmacêutica pertencem à categoria de emagrecedores injetáveis, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

Atacado amplia influência sobre o varejo

Na análise do canal atacadista e distribuidor, Bastos ressaltou o papel cada vez mais relevante do setor na cadeia nacional de abastecimento. O mercado brasileiro de bens de consumo movimenta cerca de R$ 1,1 trilhão, e o atacado já cobre mais de 51% dos canais de venda.

A presença do atacado é especialmente forte em supermercados de pequeno porte, varejo tradicional, bares e food service, segmentos em que a cobertura ultrapassa 80% em muitos casos.

O Ranking Abad 2026 aponta que os participantes da pesquisa faturaram R$ 302,5 bilhões em 2025, alta de 9,2% em relação ao ano anterior. Apesar da forte pulverização regional, São Paulo, Minas Gerais e Santa Catarina concentram mais da metade da receita do setor. O estudo também revela alta concentração econômica: apenas 13 atacadistas respondem por 50% do faturamento total analisado.

O modelo de “distribuidor com entrega” se consolidou como o principal formato de operação, respondendo por 44,5% do faturamento do atacado.

Farmácias lideram o crescimento

Dados recentes do Termômetro Abad NielsenIQ indicam que o canal farmacêutico foi o grande destaque do primeiro trimestre de 2026. Em março, as farmácias registraram crescimento de 16% em faturamento na comparação anual, desempenho muito superior ao dos demais canais monitorados.

Entre janeiro e março, o mercado nacional de consumo cresceu 5,2% em valor, impulsionado principalmente por aumento de preço médio e de tíquete por ponto de venda. O avanço em volume, porém, foi modesto, de 0,9%. No varejo alimentar, o Sudeste segue na liderança das vendas, mas o Norte apresentou o maior crescimento em faturamento no período, com alta de 11,7%.

No food service, as vendas cresceram 9% em nível nacional, apoiadas em reajustes de preços, aumento do tíquete médio e recuperação gradual do fluxo de consumidores.

Copa do Mundo deve estimular consumo em casa

Para 2026, Bastos projeta um ano marcado por grandes eventos sazonais, como eleições e Copa do Mundo, que tendem a criar picos específicos de consumo. A realização do torneio entre junho e julho deve fortalecer o consumo dentro de casa, impulsionada pelo inverno nas regiões Sul e Sudeste, pelas festas juninas no Norte e Nordeste e pelo período de férias escolares.

O estudo mapeia oportunidades para categorias associadas à conveniência, alimentos quentes, bebidas, delivery e consumo familiar no lar. Paralelamente, tendências como saudabilidade, digitalização e o comportamento da geração Z devem continuar influenciando a dinâmica do mercado brasileiro nos próximos anos.