Dívidas em atraso dos brasileiros batem recorde e somam R$ 247,6 bilhões no primeiro quadrimestre de 2026

Endividamento Recorde: Dívidas em Atraso dos Brasileiros Chegam a R$ 247,6 Bilhões no Primeiro Quadrimestre de 2026

Quase R$ 250 bilhões. Esse é o volume de créditos em atraso há mais de 90 dias no sistema financeiro brasileiro até abril, segundo levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), com base em dados do Banco Central [gráfico 1].

É o maior montante de inadimplência desde o início da série histórica, em 2004, já com correção pela inflação. Em um ano, o valor saltou 50% em relação ao mesmo período de 2025, quando somava R$ 164,3 bilhões.

Para dimensionar o movimento: o aumento de um ano para o outro equivale praticamente a todo o estoque de crédito em atraso registrado no País em 2018 (R$ 84,7 bilhões). Em São Paulo, a FecomercioSP já vinha apontando sinais de deterioração. Em maio, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostrou que 74,2% das famílias da capital estavam endividadas, o maior patamar em quatro anos. Em abril, o índice era de 72,9%. Em maio do ano passado, 71,2%. A escalada amplia o risco de avanço da inadimplência.

Por que isso está acontecendo?

A taxa Selic elevada continua consumindo uma fatia importante da renda das famílias com o pagamento de juros, reduzindo o espaço para manter as demais contas em dia. Ao mesmo tempo, a inflação voltou a pressionar neste ano, influenciada pelos efeitos da guerra no Irã sobre os preços dos combustíveis e, em cadeia, sobre alimentos, transportes e serviços. Diante desse quadro, muitos consumidores priorizaram o básico — alimentação, moradia e deslocamento — e postergaram parcelas e prestações.

Outro fator que passou a disputar o orçamento doméstico é o avanço acelerado das apostas esportivas, identificado em pesquisas recentes da FecomercioSP. O crescimento desse tipo de gasto tende a reduzir a margem disponível para o pagamento de dívidas.

Atrasos avançam no interior

Todos os Estados registraram recorde no volume de crédito em atraso. A maior variação ocorreu no Centro-Oeste (69,3%), seguido por Norte (62,7%), Sul (66,1%), Nordeste (47,4%) e Sudeste (37,9%) [tabela 2].

Entre os Estados com altas mais expressivas na comparação com 2025, destacam-se Tocantins (105%), Rio Grande do Sul (95,7%), Maranhão (93,5%), Mato Grosso (83,1%) e Goiás (81,3%) [tabela 1]. Já Distrito Federal (25,6%), Rio de Janeiro (26,6%) e Rio Grande do Norte (30,1%) ficaram abaixo da média nacional.

Além dos fatores macroeconômicos, há particularidades regionais. Nas unidades da federação em que a renda depende mais diretamente da agropecuária, as famílias ficam mais expostas às oscilações do custo de vida quando a rentabilidade no campo diminui. Com receita comprimida, sobra menos para honrar compromissos financeiros.

Em termos de participação no total de atrasos do País, São Paulo responde sozinho por 22,2% do volume, ainda que tenha crescido 36,8%, portanto abaixo da média nacional. Somados, os cinco maiores Estados — São Paulo, Minas Gerais (8,7%), Goiás (7,3%), Rio Grande do Sul (7,2%) e Rio de Janeiro (7,1%) — concentram 52,6% do total [tabela 2].

Dívidas em atraso crescem mais que o crédito

O aumento da oferta de crédito não explica, sozinho, a expansão da inadimplência em relação ao ano passado. Nos dez Estados com os maiores volumes de créditos em atraso, os dados mostram que, entre o primeiro quadrimestre de 2025 e o de 2026, o crédito concedido cresceu entre 3% e 13%, enquanto a proporção de dívidas não quitadas avançou entre 43% e 87% [tabela 1].

Em Tocantins, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Rio Grande do Sul, a relação entre crédito em atraso e volume total de crédito atingiu o maior nível da série histórica, indicando expansão simultânea do estoque de operações e das dívidas não pagas. Nos outros 23 Estados, embora a proporção de inadimplência ainda esteja abaixo do pico histórico, o valor em atraso é recorde, sustentado pelo crescimento da base de crédito ao longo dos anos.

Em 26 unidades da federação, a taxa de inadimplência é a maior do período pós-pandemia, o que reforça a gravidade do momento recente. Mesmo com uma fatia relativamente menor de pessoas inadimplentes, o volume financeiro em atraso atingiu o patamar mais alto da série.

A raiz fiscal do problema

O estudo da FecomercioSP contempla todas as modalidades de crédito para pessoas físicas: financiamento imobiliário, crédito consignado, empréstimo pessoal e rotativo do cartão, entre outras. Quando dívidas com prazos, garantias e perfis de risco tão distintos se deterioram ao mesmo tempo, o sinal é de que o problema é generalizado.

Nesse quadro, programas pontuais de renegociação, como o Desenrola, ajudam, mas têm efeito limitado e temporário. Para uma solução duradoura, será necessário enfrentar questões estruturais da política fiscal brasileira. O recorde de R$ 247,6 bilhões em crédito atrasado não é apenas um número robusto; é sintoma de desequilíbrios que só serão corrigidos com mudanças de fundo na condução da política econômica.

Na avaliação da FecomercioSP, o País precisa de uma agenda fiscal mais responsável, com busca de superávits primários que sinalizem compromisso com o controle da trajetória da dívida pública. Com menor percepção de risco, abre-se espaço para uma queda sustentável dos juros. Enquanto as taxas seguirem elevadas e a inflação continuar erodindo o poder de compra, o ciclo de endividamento e inadimplência tende a se repetir, independentemente de novas rodadas de renegociação.