O Programa Mover passou a redesenhar uma parte relevante do debate sobre o futuro da indústria automotiva brasileira. Normalmente associado a temas como eletrificação, descarbonização e eficiência energética nas montadoras, o programa começa, de forma gradual, a produzir efeitos também no Aftermarket Automotivo.
Temas como reciclabilidade de componentes, reaproveitamento de materiais, rastreabilidade, economia circular e qualificação profissional ganharam espaço nas discussões sobre reposição, reparação e manutenção de veículos. Ao mesmo tempo, a expansão da frota de veículos mais conectados, eletrificados e tecnologicamente complexos pressiona oficinas, fabricantes de autopeças e distribuidores a buscar novos patamares de especialização técnica e adaptação operacional.
Nesse contexto, cresce no setor a discussão sobre o grau de preparo do mercado de reposição para acompanhar as transformações impulsionadas pelo Mover e de que forma essas mudanças podem alterar o perfil do aftermarket nos próximos anos.
Para aprofundar esse debate, a reportagem do Aftermarket Automotivo Full Digital conversou com Renata Britto, sócia de serviços de Business Tax da Deloitte. Presente em mais de 150 países, a consultoria atua com auditoria, consultoria empresarial, gestão de riscos, consultoria tributária e assessoria financeira.
Ao longo da entrevista, Renata analisou os impactos do Mover sobre o aftermarket, a importância crescente da economia circular, os efeitos das novas exigências de reciclabilidade e rastreabilidade sobre a cadeia de reposição e os desafios de capacitação profissional diante da evolução tecnológica da frota brasileira.
Aftermarket Automotivo – Fala-se muito em um certo descolamento entre o Programa Mover e a realidade atual do Aftermarket Automotivo brasileiro. Como você enxerga hoje a relação do programa com as pautas prioritárias do mercado de manutenção de veículos?
Renata Britto – Um dos grandes diferenciais do programa é a sua visão de longo prazo e o debate que ele traz sobre a transformação não só da indústria automotiva, mas de todo o ecossistema de mobilidade. Ao impactar a cadeia como um todo, incluindo pós-venda, reparação e reposição de peças, o Mover abre oportunidades para o aftermarket, ao mesmo tempo em que impõe o desafio de olhar para o processo produtivo desde a origem, e não apenas a partir da linha de montagem. A cadeia de reparação vai precisar se adaptar, inevitavelmente, e haverá um período de reorganização e reestruturação. Ainda assim, nossa leitura é de que o programa tende a trazer novos mercados e oportunidades para o setor de reposição.
Aftermarket Automotivo – Na prática, as mudanças trazidas pelo Mover em áreas como eletrificação, eficiência energética, rastreabilidade e aumento de conteúdo tecnológico já começam a impactar o aftermarket brasileiro? Que efeitos concretos dessa transformação a cadeia já consegue perceber?
Renata Britto – As alterações introduzidas pelo Mover empurram o setor em direção à economia circular e à redução do impacto ambiental de longo prazo. Com isso, o mercado já começa a investir em qualificação e em novos equipamentos para lidar com a manutenção de motores eletrificados e, por exemplo, com sistemas de hidrogênio verde. Como, após a implementação do programa, todas as partes e peças dos veículos precisam ser reutilizáveis, recicláveis ou recuperáveis, um dos efeitos é a necessidade de adaptação às novas exigências. Esse movimento ainda está no início, mas já é visível.
Aftermarket Automotivo – O Mover reforça uma visão mais ampla do ciclo de vida dos veículos, incluindo reciclabilidade, desmontagem e reaproveitamento de componentes dentro da lógica do “berço ao túmulo”. Como essa agenda tende a impactar mercados como desmontagem automotiva e remanufatura no Brasil?
Renata Britto – O programa estimula o aftermarket ao estabelecer que, até 2030, de 80% a 95% dos materiais utilizados em carros novos sejam recicláveis, além de exigir o cálculo da pegada de carbono “do berço ao túmulo”. Essas novas regras pressionam o setor de reposição e de autopeças a adotar práticas de economia circular e a desenvolver componentes mais sustentáveis. Nesse cenário, o desmonte automotivo tende a ganhar relevância. O descarte de plásticos, borrachas e baterias deixa de ser visto apenas como um passivo ambiental e passa a ser tratado como insumo para a cadeia produtiva, o que muda o perfil das peças comercializadas no mercado de reposição.
Aftermarket Automotivo – O programa vem estimulando investimentos importantes em pesquisa, desenvolvimento e inovação na indústria automotiva. Ao mesmo tempo, as montadoras têm demonstrado interesse crescente no mercado de reposição. As inovações impulsionadas pelo Mover podem gerar vantagens competitivas para esses players nesse movimento?
Renata Britto – Sem dúvida. Ao introduzir um novo modelo de tributação que favorece veículos com menor pegada de carbono, o Mover faz com que componentes que aumentam a eficiência e têm menor impacto ambiental passem a ser priorizados, ganhando escala produtiva. Esses itens tendem a se tornar os mais demandados no mercado de reposição, o que, por sua vez, estimula novos ciclos de P&D dentro da indústria.
Aftermarket Automotivo – O avanço tecnológico estimulado pelo Mover também deve elevar o nível técnico exigido de oficinas e reparadores. Como você avalia hoje o grau de preparo do aftermarket brasileiro em termos de capacitação profissional?
Renata Britto – Assim como ocorre em relação às demais exigências do programa, o mercado de reposição vai ter de se adaptar em termos de especialização e qualificação da mão de obra – inclusive, capacitação profissional é um dos eixos do Mover. Ainda é cedo para falar em mudança estrutural nesse campo, mas alguns movimentos já aparecem. Em fevereiro, por exemplo, o Senai anunciou a destinação de R$ 1,3 bilhão ao setor automotivo, com os recursos distribuídos em cinco frentes, incluindo formação profissional.

















