Desde 2020, o aftermarket automotivo recebe investimentos bilionários

Aftermarket Automotivo Recebe Investimentos Bilionários Desde 2020: Entenda o Crescimento do Setor

De fundos de private equity a gestoras de investimentos, passando por bancos, fintechs e grupos internacionais, o aftermarket automotivo entrou definitivamente no radar do capital. O setor passou a ser visto como um mercado capaz de combinar demanda recorrente, resiliência em ciclos econômicos adversos e amplo espaço para consolidação.

Um dos casos mais emblemáticos é o da Advent International. A partir da aquisição da Fortbras, em 2016, o fundo transformou a empresa em uma plataforma de consolidação do mercado de reposição brasileiro, desencadeando uma sequência de aquisições e ampliando de forma expressiva a presença nacional da companhia. Desde então, a Advent já investiu cerca de R$ 1,2 bilhão no país, movimento que culminou na compra da Rondobras e na criação de uma grande rede de varejo de autopeças. O caso é frequentemente citado como um dos primeiros grandes exemplos de private equity apostando no potencial de crescimento estrutural do aftermarket automotivo brasileiro.

Em outro movimento, a SK Tarpon (Tarpon Investimentos S.A.) buscou, há alguns anos, uma participação relevante em uma empresa automotiva genuinamente nacional, com forte atuação no mercado de reposição. Conhecida por adquirir fatias significativas de negócios e participar ativamente da gestão, a gestora sondou o setor, mas, ao menos até agora, sem desdobramentos concretos.

Mais recentemente, o interesse avançou de forma explícita sobre o varejo de autopeças. Em dezembro de 2024, a Vinci Partners anunciou a compra de 55% da rede baiana O Varejão Autopeças, em uma operação avaliada em cerca de R$ 110 milhões. A transação chamou atenção por envolver uma das principais gestoras independentes do país investindo diretamente em uma empresa do aftermarket, com foco claro em expansão e ganho de escala.

O apetite dos investidores, porém, não se limita às empresas tradicionais. Em 2021, o Santander, por meio da Webmotors, adquiriu participação majoritária na Car10, plataforma que conecta consumidores a oficinas mecânicas e serviços automotivos em todo o Brasil. Na época, a startup já reunia mais de 8 mil oficinas parceiras. Paralelamente, o grupo também comprou participação na Solution4Fleet, especializada em locação, assinatura e gestão de frotas.

Essas operações ilustram uma mudança importante na forma como o mercado financeiro enxerga o segmento. Mais do que vender veículos ou oferecer crédito automotivo, bancos e fintechs passaram a olhar para manutenção, reparação e gestão da vida útil dos veículos como fontes relevantes de receita recorrente e de relacionamento contínuo com o cliente final.

Os investimentos também avançam pela expansão direta de grupos internacionais. Um dos exemplos mais visíveis é a AutoZone. Presente no Brasil há mais de uma década, a varejista norte-americana já superou a marca de 150 lojas no país e segue investindo para ampliar sua capilaridade.

Especialista da KPMG vê aftermarket como um dos mercados mais promissores da cadeia automotiva

Para analistas do setor, os movimentos recentes não são pontuais. Segundo Ricardo Roa, sócio e líder do segmento automotivo da KPMG Brasil, o interesse crescente pelo aftermarket é resultado de uma combinação de fatores estruturais que vêm tornando a reposição automotiva cada vez mais atraente sob a ótica financeira.

Na avaliação do executivo, o ambiente macroeconômico dos últimos anos acelerou esse processo. Juros elevados, crédito mais restrito e a valorização do dólar reduziram o ritmo de renovação da frota, prolongando a vida útil dos veículos em circulação e fortalecendo a demanda por manutenção e peças de reposição.

Ao mesmo tempo, o próprio posicionamento das montadoras em relação ao aftermarket mudou de forma relevante. Com as margens pressionadas na venda de veículos novos, as fabricantes passaram a enxergar peças, serviços e canais digitais como fontes importantes de rentabilidade, o que contribuiu para dar mais visibilidade ao setor entre investidores.

Outro fator apontado por Roa é o avanço da digitalização. A expansão de marketplaces, plataformas B2B, soluções de crédito e meios de pagamento digitais vem tornando o mercado mais organizado, rastreável e escalável – atributos valorizados por fundos de investimento e instituições financeiras.

Na visão da KPMG, o perfil econômico do aftermarket também pesa a favor. Segundo Roa, o setor combina características difíceis de encontrar simultaneamente em outros elos da cadeia automotiva. “O aftermarket se torna uma chave de resiliência em crises, pois em períodos de desaceleração o consumidor posterga a compra do carro novo e investe mais para manter o atual, o que sustenta o faturamento do setor”, afirma.

Essa dinâmica ajuda a explicar por que o mercado continua atraindo capital mesmo em cenários econômicos desafiadores. A combinação de demanda recorrente, maior previsibilidade de receitas e necessidade relativamente menor de investimentos intensivos em ativos físicos torna o segmento particularmente interessante para investidores com foco em crescimento de longo prazo.

Ao analisar os diferentes elos da cadeia, Roa destaca distribuição, varejo, centros automotivos e empresas de tecnologia como áreas com maior potencial de geração de valor. No atacado distribuidor, a elevada fragmentação abre espaço para consolidação, com ganhos de escala e eficiência. Já no varejo e nos centros automotivos, a proximidade com o consumidor final favorece a construção de marcas fortes e a ampliação do portfólio de serviços.

As empresas de tecnologia também ganham protagonismo. Marketplaces, plataformas de gestão de oficinas, catálogos eletrônicos e soluções baseadas em dados configuram modelos de negócio escaláveis, com potencial de margens mais elevadas – outro ponto que costuma atrair investidores.

Para os próximos anos, Roa acredita que a combinação entre digitalização, envelhecimento da frota, maior integração da cadeia e consolidação do mercado deve sustentar o interesse de investidores nacionais e estrangeiros. Na avaliação da KPMG, o aftermarket brasileiro ainda tem amplo espaço para novos ciclos de fusões e aquisições, crescimento de empresas de tecnologia e entrada de capital internacional. “Na prática, há espaço para novos movimentos de consolidação, maior participação de capital estrangeiro e um crescimento relevante de empresas de tecnologia integradas ao aftermarket tradicional”, projeta o executivo.

Aftermarket pode estar apenas no início da sua onda de consolidação

Nos últimos 20 anos, alguns dos principais setores da economia brasileira passaram por processos profundos de consolidação, impulsionados por fundos de investimento, private equity e intensos movimentos de fusões e aquisições. Saúde, educação e varejo alimentar são alguns dos exemplos mais claros.

Saúde: da pulverização aos gigantes bilionários

No início dos anos 2000, o setor de saúde suplementar era altamente fragmentado. A entrada de capital e a consolidação de operações deram origem a grandes grupos nacionais. O caso mais emblemático foi a fusão entre Hapvida e NotreDame Intermédica, concluída em 2021, que criou uma companhia avaliada em cerca de R$ 110 bilhões, uma das maiores transações corporativas da história recente do país.

Educação: consolidação via aquisições

O ensino superior privado também era formado por centenas de instituições independentes. Ao longo de duas décadas, grupos como Cogna (antiga Kroton), Yduqs (Estácio), Cruzeiro do Sul e Ser Educacional lideraram dezenas de aquisições, transformando um mercado pulverizado em um setor dominado por grandes plataformas nacionais. Mesmo hoje, movimentos de consolidação seguem no radar, incluindo novas conversas entre Cogna e Yduqs.

Varejo alimentar: redes regionais viram plataformas nacionais

O varejo supermercadista trilhou caminho semelhante. Aquisições e expansões lideradas por Carrefour, Assaí, GPA e fundos de investimento reduziram gradualmente o espaço de empresas independentes e ampliaram o peso das grandes redes com atuação nacional.

E o Aftermarket Automotivo?

Sob vários aspectos, o aftermarket brasileiro atual lembra esses setores antes das grandes ondas de consolidação:

Característica | Saúde (anos 2000) | Educação (anos 2000) | Aftermarket hoje —|—|—|— Mercado pulverizado | ✓ | ✓ | ✓ Empresas familiares | ✓ | ✓ | ✓ Baixa concentração | ✓ | ✓ | ✓ Receita recorrente | ✓ | ✓ | ✓ Ganhos de escala relevantes | ✓ | ✓ | ✓ Interesse de fundos | ✓ | ✓ | Crescente Componente tecnológico | Médio | Alto | Crescente

Há, porém, um diferencial importante. Enquanto saúde e educação dependem fortemente de regulação e de mudanças demográficas, o aftermarket se apoia em uma base de aproximadamente 48 milhões de autoveículos, com idade média próxima de 11 anos – e com projeções de dobrar o faturamento até 2040.

Essa combinação de escala, previsibilidade e baixa concentração é exatamente o tipo de perfil que costuma atrair fundos de private equity, como aponta a consultoria McKinsey. O cenário indica que os investimentos observados até aqui não representam o auge do movimento, mas apenas seus primeiros capítulos. Em outras palavras, enquanto saúde, educação e varejo alimentar já atravessaram grandes ondas de consolidação, o aftermarket automotivo brasileiro pode estar apenas começando a viver a sua.