Redução da jornada de trabalho preocupa lojistas de autopeças diante do aumento de custos e da necessidade de reorganizar operações

Redução da Jornada de Trabalho em Lojas de Autopeças: Como Enfrentar o Aumento de Custos e Reorganizar as Operações

Em entrevista à nossa reportagem, a assessora jurídica da FecomercioSP, Karina Negreli, manifestou preocupação com os efeitos que a PEC da redução da jornada de trabalho pode trazer para setores intensivos em mão de obra. Segundo ela, áreas que lidam com vendas de necessidade imediata, como materiais de construção e autopeças, tendem a enfrentar dificuldades adicionais para absorver o aumento de custos sem comprometer faturamento, nível de serviço ou competitividade.

Karina também destacou um ponto sensível para o Aftermarket Automotivo: a forte dependência de profissionais com conhecimentos técnicos específicos em funções de atendimento, identificação de aplicações e suporte ao cliente. Na avaliação da entidade, esse perfil especializado limita a possibilidade de automatizar determinadas atividades e torna mais complexa a substituição de mão de obra qualificada por profissionais menos experientes.

As preocupações da FecomercioSP são compartilhadas por empresários e gestores do próprio setor de autopeças. Ouvidos pela reportagem, representantes de diferentes varejistas concordam que a proposta pode gerar impacto relevante, ainda que com leituras e graus de apreensão distintos.

Na Jocar, rede que opera seis dias por semana, o diretor Moisés Sirvente afirma que ainda é prematuro falar em medidas concretas de adaptação. A empresa, segundo ele, acompanha a tramitação da PEC e aguarda a definição do texto final para então avaliar eventuais ajustes operacionais. Ainda assim, Sirvente admite que o cenário aponta para aumento de custos. “Não é novidade mudar uma lei que aumenta os custos para as empresas. Se for aprovado, teremos que dar um jeito e nos adequar”, resumiu.

A leitura de impacto econômico é ainda mais direta na análise de Flavio Ramos, diretor da Somar+. Embora a empresa já funcione de segunda a sexta-feira, ele considera que a redução da jornada vai pressionar a estrutura de custos e gerar efeitos em cadeia sobre preços, volume de vendas e remuneração variável das equipes. A estratégia da Somar+ passa por buscar ganhos de produtividade e ajustes internos para tentar compensar a menor carga horária. “Aumento dos custos com certeza, repasse destes custos nos preços, aumento da inflação, maior dificuldade para venda. Redução da comissão dos vendedores, encarregados e gerentes, desmotivação. Todos perdem”, avalia Ramos.

Na Matrocar, que também atende de segunda a sábado, a maior preocupação está no desenho operacional. De acordo com o gerente-geral, Felipe Lima, a empresa já estuda a criação de escalas de folga ao longo da semana para manter as lojas abertas aos sábados, considerados estratégicos para o atendimento de clientes finais e oficinas.

Mesmo assim, Lima não acredita que apenas reorganizar as escalas será suficiente para neutralizar todos os efeitos da mudança. “O principal impacto que estamos vislumbrando é a provável necessidade de novas contratações, na medida em que, mesmo com a criação de escalas, alguns setores da empresa terão dificuldade de performar com equipe reduzida”, conclui.