Envelhecimento da frota impulsiona o mercado de pós

Como o Envelhecimento da Frota Impulsiona o Crescimento do Mercado de Pós-Venda Automotivo

Entre os fatores que mais sustentam a atratividade do mercado brasileiro de manutenção veicular está o envelhecimento acelerado da frota. Segundo o Relatório da Frota Circulante 2025, a idade média dos autoveículos já chegou a 10 anos e 11 meses. Entre os leves, esse número sobe para 11 anos e 2 meses. O movimento se consolidou ao longo da última década, impulsionado pelo encarecimento dos carros novos, pela restrição de crédito em diferentes momentos e pela ausência de uma política consistente de renovação da frota. Em termos práticos, isso se traduz em um volume crescente de veículos que exigem manutenção, reparos e troca de peças com maior frequência.

Outro ponto recorrente nas análises de especialistas é a alta pulverização do setor. Dados recentes do Sincopeças-SP mostram que o aftermarket nacional continua dominado por micro e pequenas empresas, distribuídas em uma cadeia extensa e fragmentada. Entre 2024 e 2025, o varejo de autopeças perdeu cerca de 9 mil empresas, movimento interpretado como reflexo do avanço dos processos de consolidação. O estudo aponta ainda uma proporção de aproximadamente oito varejistas para cada atacadista, o que reforça o grau de pulverização e indica espaço relevante para ganho de escala e eficiência.

A própria complexidade da oferta reforça esse diagnóstico. De acordo com o Anuário do Sincopeças, o aftermarket brasileiro trabalha hoje com mais de 800 mil produtos ativos, distribuídos em mais de 8.200 marcas e 4.620 grupos de produtos. Essa realidade exige investimentos crescentes em tecnologia, logística, gestão de estoques e inteligência operacional.

Esse conjunto de fatores levou a McKinsey a apontar um expressivo potencial de evolução para o aftermarket nacional. A consultoria projeta que, impulsionado por digitalização, maior integração da cadeia e crescimento dos marketplaces, o mercado pode atingir a marca de US$ 25 bilhões até 2040.

Mais do que um exercício de otimismo, essa perspectiva começa a ser confirmada por movimentos concretos. Nos últimos anos, o Aftermarket Automotivo passou a atrair capital de fundos de investimento, operações de fusões e aquisições, aportes em plataformas digitais e o interesse crescente de bancos e outros agentes financeiros.

De 2020 em diante, Aftermarket Automotivo passa a receber aportes bilionários

De fundos de private equity a gestoras de recursos, passando por bancos, fintechs e grupos estrangeiros, diversos players passaram a enxergar o aftermarket como um mercado capaz de combinar demanda recorrente, resiliência em ciclos econômicos adversos e oportunidades claras de consolidação.

Um dos casos mais emblemáticos é o da Advent International. A partir da aquisição da Fortbras, em 2016, o fundo transformou a empresa em uma plataforma de consolidação do mercado brasileiro de reposição, conduzindo uma sequência de aquisições e ampliando de forma relevante sua presença nacional. Desde então, a Advent investiu cerca de R$ 1,2 bilhão no país, movimento que incluiu a compra da Rondobras e resultou na formação de uma das maiores redes de varejo de autopeças do Brasil. O caso costuma ser citado como um dos primeiros grandes exemplos de private equity apostando de maneira estruturada no potencial de crescimento do aftermarket nacional.

Em outra frente, a SK Tarpon/Tarpon Investimentos S.A. buscou participação em uma empresa automotiva genuinamente brasileira e com forte presença no mercado de reposição. Conhecida por assumir fatias relevantes e influenciar ativamente a gestão dos negócios em que investe, a gestora sondou o setor, mas, até agora, sem chegar a uma operação concreta.

Mais recentemente, os holofotes se voltaram diretamente ao varejo de autopeças. Em dezembro de 2024, a Vinci Partners anunciou a aquisição de 55% da rede baiana O Varejão Autopeças, em operação avaliada em cerca de R$ 110 milhões. O negócio ganhou destaque por envolver uma das principais gestoras independentes do país apostando de forma direta em uma empresa do aftermarket, com foco explícito em expansão e ganho de escala.

O interesse dos investidores, porém, não se restringe às empresas tradicionais da cadeia. Em 2021, o Santander, por meio da Webmotors, assumiu participação majoritária na Car10, plataforma que conecta consumidores a oficinas mecânicas e serviços automotivos em todo o país. Na época, a empresa já reunia mais de 8 mil oficinas parceiras. Na mesma direção, o grupo adquiriu participação na Solution4Fleet, especializada em locação, assinatura e gestão de frotas.

Essas operações ilustram uma mudança importante na forma como o mercado financeiro enxerga o segmento. Mais do que vender veículos ou oferecer crédito, bancos e fintechs passaram a ver a manutenção, o reparo e a gestão do ciclo de vida dos veículos como fontes relevantes de receita e de relacionamento contínuo com o cliente.

Há ainda o avanço por meio da expansão direta de grupos internacionais. Um dos exemplos mais visíveis é a AutoZone. Presente no Brasil há mais de uma década, a varejista norte-americana já ultrapassou a marca de 150 lojas no país e segue investindo na ampliação de sua capilaridade.

KPMG vê Aftermarket como um dos elos mais promissores da cadeia automotiva e projeta continuidade dos investimentos

Para especialistas, os movimentos dos últimos anos não são pontuais. Ricardo Roa, sócio e líder do segmento automotivo da KPMG Brasil, avalia que a atenção dedicada ao aftermarket é resultado de uma combinação de fatores estruturais que torna o segmento de reposição cada vez mais interessante do ponto de vista financeiro.

Segundo Roa, o ambiente macroeconômico recente ajudou a acelerar essa dinâmica. Juros altos, crédito mais restrito e valorização do dólar reduziram o ritmo de renovação da frota, prolongando a vida útil dos veículos em circulação e fortalecendo a demanda por manutenção e peças de reposição.

Ao mesmo tempo, o executivo destaca que o próprio posicionamento das montadoras em relação ao aftermarket mudou de forma significativa. Com margens pressionadas no mercado de veículos novos, as fabricantes passaram a olhar para peças, serviços e canais digitais como fontes relevantes de rentabilidade, o que aumentou a visibilidade do segmento entre investidores.

Outro vetor apontado por Roa é o avanço da digitalização. A expansão de marketplaces, plataformas B2B, soluções de crédito e meios de pagamento contribuiu para organizar e tornar mais escalável um mercado historicamente fragmentado — justamente o tipo de característica valorizada por fundos de investimento e instituições financeiras.

Na visão da KPMG, o interesse dos investidores também está associado ao perfil econômico específico do aftermarket. Segundo Roa, o setor reúne atributos que raramente aparecem juntos em outros elos da cadeia automotiva. “O aftermarket se torna uma chave de resiliência em crises, pois, em períodos de desaceleração, o consumidor posterga a compra do carro novo e investe mais para manter o atual, o que sustenta o faturamento do setor”, afirma.

Essa característica ajuda a explicar por que o mercado segue atraindo capital mesmo em cenários mais desafiadores. A combinação entre demanda recorrente, maior previsibilidade de receita e necessidade relativamente menor de investimentos pesados em ativos físicos torna o segmento particularmente atrativo para investidores com foco em crescimento de longo prazo.

Ao observar os diferentes elos da cadeia, Roa aponta distribuição, varejo, centros automotivos e empresas de tecnologia como os segmentos com maior potencial de criação de valor. No atacado, a forte fragmentação abre espaço para consolidação e ganhos de escala. No varejo e nos centros automotivos, a proximidade com o consumidor final favorece a construção de marcas fortes e a ampliação do portfólio de serviços.

As empresas de tecnologia também ocupam posição central nesse cenário. Marketplaces, plataformas de gestão de oficinas, catálogos eletrônicos e soluções baseadas em dados tendem a operar com maior escalabilidade e margens potencialmente mais altas, perfil que tradicionalmente atrai investidores.

Para os próximos anos, Roa acredita que a combinação entre digitalização, envelhecimento da frota, integração da cadeia e consolidação deverá sustentar o interesse de investidores locais e estrangeiros. Em sua avaliação, o aftermarket brasileiro ainda oferece amplo espaço para novos ciclos de fusões e aquisições, crescimento de empresas de tecnologia e maior presença de capital internacional. “Na prática, há espaço para novos movimentos de consolidação, aumento da participação de capital estrangeiro e um crescimento relevante de empresas de tecnologia integradas ao aftermarket tradicional”, projeta.

Aftermarket Automotivo pode estar no início de sua onda de consolidação

Ao longo das últimas duas décadas, alguns dos principais setores da economia brasileira passaram por ciclos intensos de consolidação impulsionados por fundos de investimento, private equity e operações de M&A. Saúde, educação e varejo alimentar são exemplos conhecidos desse processo.

Saúde: da pulverização aos grandes grupos

No começo dos anos 2000, a saúde suplementar era um mercado altamente fragmentado. A entrada de capital e a agenda de consolidação deram origem a grandes grupos nacionais. O caso mais emblemático é a fusão entre Hapvida e NotreDame Intermédica, concluída em 2021, que resultou em uma companhia avaliada em cerca de R$ 110 bilhões, uma das maiores transações corporativas recentes do país.

Educação: consolidação via aquisições

O ensino privado também era formado por centenas de instituições independentes. Em duas décadas, grupos como Cogna (ex-Kroton), Yduqs (Estácio), Cruzeiro do Sul e Ser Educacional lideraram dezenas de aquisições, transformando um mercado pulverizado em um setor dominado por grandes plataformas. Mesmo hoje, a consolidação continua no radar, com novas conversas entre Cogna e Yduqs periodicamente voltando à pauta.

Varejo alimentar: redes regionais viram plataformas nacionais

O varejo supermercadista seguiu caminho similar. Movimentos liderados por Carrefour, Assaí, GPA e fundos de investimento reduziram ao longo do tempo o peso de redes independentes e fortaleceram grandes grupos nacionais.

E o Aftermarket Automotivo?

Sob vários aspectos, o aftermarket brasileiro hoje lembra esses setores antes da consolidação:

Característica Saúde (anos 2000) Educação (anos 2000) Aftermarket hoje
Mercado pulverizado
Empresas familiares
Baixa concentração
Receita recorrente
Ganhos de escala relevantes
Interesse de fundos Crescente
Forte componente tecnológico Médio Alto Crescente

Há, no entanto, uma diferença relevante. Enquanto saúde e educação dependem fortemente de regulação e de tendências demográficas, o aftermarket se apoia em uma base de cerca de 48 milhões de autoveículos com idade média próxima de 11 anos — e com projeção de dobrar seu faturamento até 2040.

Essa combinação de escala, previsibilidade e baixa concentração é precisamente o tipo de configuração que costuma atrair fundos de private equity, como aponta a McKinsey. Tudo indica que os investimentos feitos até agora não representam o auge desse movimento, mas apenas seus primeiros capítulos. Em outras palavras, enquanto saúde, educação e varejo já viveram grandes ondas de consolidação, o Aftermarket Automotivo brasileiro pode estar apenas começando a entrar na sua.