Os movimentos dos últimos anos deixam claro que o interesse de investidores pelo Aftermarket Automotivo não é passageiro. Para Ricardo Roa, sócio e líder do segmento automotivo da KPMG Brasil, essa atenção é resultado de uma combinação de fatores estruturais que vêm tornando o mercado de reposição cada vez mais atrativo sob a ótica financeira.
Na avaliação do executivo, o ambiente macroeconômico recente acelerou esse processo. Juros altos, crédito mais restrito e valorização do dólar desaceleraram a renovação da frota, alongando a vida útil dos veículos em circulação e impulsionando a demanda por manutenção e peças de reposição.
Ao mesmo tempo, as próprias montadoras mudaram de postura em relação ao aftermarket. Com margens pressionadas na venda de veículos novos, fabricantes passaram a enxergar peças, serviços e canais digitais como fontes relevantes de rentabilidade, o que aumentou a visibilidade do setor perante o mercado financeiro.
A digitalização é outro vetor importante. A expansão de marketplaces, plataformas B2B, soluções de crédito e meios de pagamento vem tornando o mercado mais organizado, transparente e escalável — atributos altamente valorizados por fundos de investimento e instituições financeiras.
Na visão da KPMG, o interesse dos investidores também está diretamente ligado ao perfil econômico do aftermarket. Segundo Roa, o setor reúne características raras de serem encontradas simultaneamente em outros elos da cadeia automotiva. “O aftermarket se torna uma chave de resiliência em crises, pois, em períodos de desaceleração, o consumidor adia a compra do carro novo e investe mais para manter o atual, o que sustenta o faturamento do setor”, afirma.
Essa resiliência ajuda a explicar por que o mercado continua atraindo capital mesmo em cenários econômicos desafiadores. A combinação entre demanda recorrente, maior previsibilidade de receitas e necessidade relativamente menor de investimentos pesados em ativos físicos torna o aftermarket particularmente interessante para investidores com foco em crescimento de longo prazo.
Ao observar os diferentes elos da cadeia, Roa aponta distribuição, varejo, centros automotivos e empresas de tecnologia como os segmentos com maior potencial de geração de valor. Na distribuição, a forte fragmentação abre espaço para consolidações capazes de gerar ganhos de escala e eficiência. No varejo e nos centros automotivos, a relação direta com o consumidor final favorece a construção de marcas fortes e a ampliação do portfólio de serviços.
As empresas de tecnologia também ganham protagonismo nesse cenário. Marketplaces, plataformas de gestão de oficinas, catálogos eletrônicos e soluções baseadas em dados configuram modelos de negócio escaláveis e com potencial de margens mais elevadas, um perfil alinhado ao apetite de investidores.
Para os próximos anos, Roa projeta que a combinação entre digitalização, envelhecimento da frota, maior integração da cadeia e avanço da consolidação deve sustentar o interesse de investidores nacionais e estrangeiros. Segundo ele, o aftermarket brasileiro ainda tem espaço amplo para novos ciclos de fusões e aquisições, crescimento de empresas de tecnologia e entrada de capital internacional. “Na prática, há espaço para novos movimentos de consolidação, maior participação de capital estrangeiro e crescimento relevante de empresas de tecnologia integradas ao aftermarket tradicional.”
Aftermarket pode estar apenas no início de sua onda de consolidação
Nas últimas duas décadas, alguns dos principais setores da economia brasileira passaram por transformações profundas impulsionadas por fundos de investimento, private equity e operações de fusões e aquisições. Saúde, educação e varejo alimentar são exemplos claros desse movimento.
Saúde: da pulverização aos gigantes bilionários
No início dos anos 2000, o setor de saúde suplementar era altamente fragmentado. A entrada de capital e a consolidação deram origem a grandes grupos nacionais. O caso mais emblemático é a fusão entre Hapvida e NotreDame Intermédica, concluída em 2021, que resultou em uma companhia avaliada em cerca de R$ 110 bilhões, uma das maiores operações corporativas da história recente do país.
Educação: consolidação via aquisições
O ensino privado brasileiro também era formado por centenas de instituições independentes. Ao longo de duas décadas, grupos como Cogna (antiga Kroton), Yduqs (Estácio), Cruzeiro do Sul e Ser Educacional lideraram dezenas de aquisições, transformando um mercado pulverizado em um setor dominado por grandes plataformas nacionais. Mesmo hoje, a consolidação continua no radar, com novas conversas entre Cogna e Yduqs.
Varejo alimentar: redes regionais viram plataformas nacionais
O varejo supermercadista seguiu caminho parecido. Movimentos liderados por Carrefour, Assaí, GPA e fundos de investimento reduziram gradualmente a participação de empresas independentes e ampliaram o peso das grandes redes com atuação nacional.
E o Aftermarket Automotivo?
Sob vários aspectos, o aftermarket brasileiro hoje lembra esses setores antes da grande onda de consolidação:
- Mercado pulverizado
- Forte presença de empresas familiares
- Baixa concentração
- Receita recorrente
- Ganhos de escala relevantes
- Interesse crescente de fundos
- Componente tecnológico em expansão
Há, porém, um diferencial importante. Enquanto saúde e educação dependem fortemente de regulação e de dinâmicas demográficas, o aftermarket se apoia em uma base de aproximadamente 48 milhões de autoveículos, com idade média próxima de 11 anos — e com projeção de dobrar o faturamento até 2040.
Essa combinação de escala, previsibilidade e baixa concentração é exatamente o tipo de perfil que tradicionalmente atrai fundos de private equity, como aponta estudo da McKinsey. Tudo indica que os investimentos observados até agora não representam o auge desse movimento, mas apenas seus primeiros capítulos. Em outras palavras, enquanto saúde, educação e varejo já viveram grandes ondas de consolidação, o Aftermarket Automotivo brasileiro pode estar apenas começando a viver a sua.
















